Mais um chegou lá…

Do final da década de 1950 até a segunda metade da década de 1980, Calçado passou por um período de decadência econômica e do êxodo da sua população, urbana e rural. Dois fatores foram preponderantes:  o primeiro, a derrocada econômica do nosso maior empresário, de todos os tempos, o Dr. Pedro Vieira Filho. Todos os seus empreendimentos foram sendo entregues para pagar as dívidas oriundas da quebra do Banco de Calçado e da paralização das obras da Usina São José. O Colégio de Calçado, um dos marcos da cultura calçadense, foi transferido para o estado; a fábrica de cachaça Fazenda Velha, a fábrica de telhas e tijolos, construída para fornecer material para a construção da Usina, passaram para a administração de parentes; o Cine São José, o Internato e o Hotel cerraram suas portas; e, finalmente, as suas propriedades foram vendidas ou transferidas de titularidades.

Depois de ter saldado suas dívidas, Dr. Pedro Vieira Filho mudou-se para a capital, onde ocupou cargos no poder judiciário. Veio a falecer, em Vitória, já bem velhinho, após 30 anos do seu grande sonho não ter se realizado, a   Usina São José.  O segundo fator, foi a erradicação das lavouras de café, uma política de controle de preços imposta pelo governo federal, no início da década de 1960.

 Nesse período, o município viveu um tempo de melancolia. Eu mesmo me lembro das caminhadas pelas ruas vazias da cidade… dava uma tristeza danada olhar para essas ruas, principalmente nos períodos de férias escolares. Sem nenhum sinal de vida, e a disposição de um sol escaldante do meio-dia, nem os cachorros vira-latas se atreviam a caminhar no calçamento quente daquela solidão. Foi nesse período que a juventude calçadense deixou a cidade.

 A minha geração migrou, em sua grande maioria, para o Rio de Janeiro, Niterói, Vitória e Viçosa. Eu, junto com uma turma de jovens recém-saídos da adolescência, fomos estudar em Viçosa. Lá formamos uma grande comunidade de “estrangeiros”. Morávamos juntos, íamos ao cinema, sempre juntos, formávamos times de futebol, tomávamos cachaça, e muita cachaça, juntos, e até para namorar, às vezes, saímos juntos. O grupo calçadense era um dos maiores na UFV, ao lado do grupo de Cacheiro do Itapemirim-ES e o de Capitólio-MG, que também se destacavam pela união. O curioso, é que quando estávamos em férias, em Calçado, essa união se desfazia, cada um ia viver o seu outro lado, com outros amigos, e com as namoradas.   

Alguns membros fora do ninho calçadense também  se agrupavam a nós, como aconteceu com Jailton, nosso vizinho de Bom Jesus, e o Paulo Pingote, de Alegre, que se tornaram integrantes  do grupo.

Passados quase cinquenta anos da nossa jornada por Viçosa, vez ou outro encontro com alguns desses amigos, e a conversa é sempre muito agradável e revigorante, pois retornamos às lembranças da juventude, época em que os sonhos moviam as nossas vidas.  

Hoje, estamos de cabelos brancos e com sulcos na pele ressecada, causados pelo vento do tempo, que sopra a vela do barco da nossa vida    para o infinito.  Dois já chegaram lá: O Paulo Pingote, há algum tempo, e, recentemente, o Pedro Antônio Cravinho.

Amigos, quem sabe se nesse mistério que nos ronda, formaremos novamente esse grupo em um plano infinito?

 Por enquanto, deixa o vento do tempo soprar  às velas dos barcos…

Oscar Rezende

Vitória, verão de 2022

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