O velho da minha rua

Uma das características que carrego comigo é gostar de velho! Quando criança eu gostava de velho, quando jovem eu gostava de velho, quando adulto eu gostava de velho e agora que sou meio-velho, continuo gostando de velho. Minha avó Lota me considerava um dos netos prediletos. Na infância, quando vínhamos da Fazenda Velha para a cidade, a sua casa era o nosso pouso. Vovó sempre me fazia um agrado: me dava docinhos, que ela mantinha escondidos em  suas latas… guloseimas quase sempre mofadas pelo tempo, mas eu gostava assim mesmo.  O avô da minha companheira, já bem velhinho, quando visitava Viçosa, sua terra natal, se hospedava lá em casa… mesmo sabendo que teria que conviver com duas crianças pequenas e choronas, recusava uma hospedagem mais confortável na casa das irmãs, o argumento dele era que gostava de conversar comigo. A recíproca era verdadeira… nos finais de semana, nós dois saímos de carro pelo interior do município, visitando parentes e os locais da sua infância. Os seus casos eram aulas gratuitas de história e memória! Muito do que escrevo hoje,  roubei da memória dos meus velhos.

O velho da minha rua, eu acompanho há vinte e cinco anos. Vi pela primeira vez o velho da minha rua quando tomei posse da minha rua: ele era um velho de meia idade, sempre muito bem-vestido:  trajando uma calça branca, muito bem passada, deixando à mostra um vinco impecável, sapatos brancos e uma camisa de cor escura “volta ao mundo”, estilo anos 50, muito bem passada. Toda essa indumentária ornamentava um corpo perfumado (dava para sentir de longe), moreno e esguio. Um raro exemplar de dançarino de bolero dos anos cinquenta. Ao entorno de sua beleza, o velho da minha rua dirigia um conservadíssimo Monza vinho, anos 80.

O tempo foi passando, mas o velho da minha rua não perdeu a classe. Quem frequenta o supermercado Carone, de Jardim da Penha, já deve ter assistido   o velho da minha rua despejando gentilezas de conquistador às funcionárias do estabelecimento.

Por um tempo, deixei de ver o velho da minha rua. Mas, depois desse desaparecimento, tive o prazer de encontrá-lo novamente. O Velho da minha rua ficou velho mesmo! Me disse que tem mais de noventa e cinco anos. Continua cada vez mais bonito, agora com as pernas cansadas. Anda na calçada em frente à sua casa (a única da minha rua que resistiu ao crescimento imobiliário), carregando um pequeno banco de plástico, para descansar o corpo quando suas  pernas cansadas resolverem não colaborar.

Hoje, quando fui para o “pilates”, vi o velho da minha rua: sem camisa, com seu corpo moreno e esguio, vestindo um short, impecavelmente branco, sentado na varanda de sua casa, com uma “alexa” ao lado, escutando Altemar Dutra.  O Monza descansava na garagem.

Não sei quase nada da história do velho da minha rua, mas tenho a sensação de que me faltou conversar com o ele, talvez eu tenha perdido a oportunidade, de mais uma vez, roubar dos meus velhos as suas histórias e memórias.  

Que o velho da minha rua continue a sua jornada, se alimentando de suas lembranças…

Oscar Rezende

Vitória, outono de 2022

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