O sábado começava gelado e terminava mais gelado ainda. Mesmo que o café de sábado fosse até um pouco mais tarde, levantar-se e ir ao refeitório era uma luta a ser travada com a cama e o cobertor — os invernos na Universidade Federal de Viçosa eram de lascar: com temperaturas entorno de 5°C. — Mas, o sol de inverno era lindo, muito lindo! Aquecia o corpo e o coração do(a)s estudantes nas manhãs de sábado em frente ao DCE. Ali rolava todo o tipo de papo: futebol, política, o maldito Cálculo I, do professor Heleno, a tal gota d’água do professor Matosinho, de Agricultura I, que ao cair no solo causava o maior “furdunço”; mas, o papo principal eram as paqueras, como eram deliciosas as paqueras! A trilha sonora que dava o tom desse encontro de almas ficava por conta de uma roda de violão, cavaquinho e precursão. Era bom demais! Só mesmo as noites vadias seriam capazes de superara essas manhãs de sábado!
Lá pelas 19 horas, quando o frio começava a sair dos vales e matas ao redor da UFV, era hora de descer para a cidade. Dois caminhos eram possíveis: percorrer direto os mais de um quilometro até a cidade ou passar antes no alojamento feminino, para se encontrar com a namorada de ocasião, ou, quem sabe, com aquela que venceu o tempo e se encantou como esposa.
A rotina das noites vadias seguia o seu rumo: um lanche no quibe lanches, do turco, uma janta no restaurante Universitário ou, quando chegava a pindaíba do final do mês, encher o bucho num dos botecos “copos sujos” da vida. Após o corpo, a mente era alimentada por um sagrado filme no Odeon, no Cine Brasil ou no Marajá…uma diversão suave, antes da noite vadia começar, para valer.
Espalhávamos pelos bares da cidade na direção que o coração mandasse. Cada um tinha o seu preferido… os que eu mais frequentava era um perto do posto de gasolina, nas quatro pilastras, o Elefantinho, e um outro, todo estilizado, que não me lembro o nome, no início da Rua Arthur Bernardes. Regados a cerveja, cachaça, caipirinha, vinho, as vezes quente (uma bosta! mas para estudante tudo é bom), virávamos a madrugada das noites vadias, em companhia de um violão e da maravilhosa voz da capixaba (conterrânea) Gogóia ( Maria da Glória Cansado da Engenharia Florestal), cantando fascinação, tal qual Elis Regina. Vez ou outra, quando o dinheiro dava, um chegadinho na boate Braseiro. Tudo isso para encontrar os três filhos pródigos das noites vadias: a paixão, o amor e a desilusão.
De repente, o galo cantava em algum canto do mundo… era o anúncio de que a noite vadia iria nos devolver a razão. Os que foram encantados pela paixão ou pelo amor subiam a reta gelada da UFV aquecidos pelo fervor do coração. Já os encantados pela desilusão não tinham com o que aquecer a alma fria, só restava mesmo amaldiçoar àquela noite vadia, que lhe deixara como lembrança uma bela ressaca… mesmo assim, não se abatiam, na esperança que uma próxima noite vadia trouxesse uma varinha encantada para lhes tocar o coração.
Oscar Rezende
Vitória, outono de 2021.
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