Apesar do título macabro, não falarei do sobrenatural, mas, sim, da vida e da morte. Acredito que dentre as invenções humanas aquelas que nos trazem mais tormentos são os instrumentos de marcação de tempo: calendário, relógio, ampulheta, e por aí vai… essas marcações nos transformaram em escravos do tempo: o tempo para fazer uma tarefa, o tempo para o trabalho, o tempo para descansar e, até mesmo, o tempo para amar. No entanto, o que mais fustiga a mente humana é o tempo que lhe resta até morrer!
Tenho comigo que essa contagem de tempo não nos harmoniza com o tempo, apenas nos insere em um movimento que conduz nossas almas para uma vida de competições, de acumulações e de necessidades materiais. Seria essa a nossa missão natural, para nos aproximarmos da perfeição que a natureza (ou Deus) nos criou? Penso que não!
Se o tempo da vida fosse contado pela quantidade de mortos que guardamos em nosso baú de mortos talvez entendêssemos melhor o significado de vida e morte. Normalmente, são os avós (ou até bisavós) os primeiros que guardamos no nosso baú de mortos. Com eles aprendemos como o amor é doce, até mesmo no sentido literal: pois avós adoram dar doces aos netos. Depois, chega a hora de guardarmos os nossos pais. Diferente dos avós, o sofrimento é um pouco maior, mas o aprendizado também… além do amor, aprendemos com os nossos pais a responsabilidade e a construção do nosso caráter. Quando chega a hora de guardarmos os irmãos na nossa arca de mortos, aprendemos o quanto é importante compartilharmos o nosso amor, as nossas coisas e a nossa vida, pois os irmãos nos dão a medida da solidariedade. E tem mais: quando guardamos um amigo ou um(a) companheiro(a) no nosso baú de mortos entendemos o quanto somos minúsculos em relação a esse universo que nos cerca, e que a finitude é uma realidade que se aproxima.
É claro que essa lógica pode ser interrompida a qualquer momento! Uma tragédia pode nos surpreender numa das curvas da vida… de repente estamos guardando um filho no nosso baú das mortes, antes que ele nos guarde. Esse é, com certeza, o maior sofrimento da vida, pois estamos guardando, ainda em vida, um pedaço de nós mesmo no nosso baú de mortos. Não sei que aprendizado vem acompanhado desse sofrimento? Mas, deve haver algum, se não, a vida perderia o seu sentido.
Agora, imaginem uma situação surreal: em que você se torne imortal, que o seu baú de mortos esteja sem espaço para novos mortos, e que não tenha mais nenhum morto para você guardar. Que sentido teria viver, para você? Penso que nenhum! Então, vamos caminhando, enchendo o nosso baú de mortos e, antes que ele transborde, nos acomodemos lá dento… assim, fica mais fácil morrer e entender que a morte também é um aprendizado, talvez o último!
Vida que segue….
Oscar Rezende
Vitória, outono de 2021
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