Na minha tese de doutorado, no item agradecimentos, está escrito: “Agradeço aos amigos Antônio Henrique e Madalena pelas conversas políticas, filosóficas e cientificas, em nossos encontros nos finais de tarde nas cafeterias de Vitória”.
O ano letivo começa em fevereiro, mas, para valer mesmo só em março, após o carnaval. Março é um mês encrencado, não me simpatizo com março! Faz calor, é abafado, o vento nordeste não sopra, o vento sul também não… aliás, não sopra vento de lado nenhum! As águas de março não refrescam, só destroem, escancarando, ainda mais, as mazelas sociais do Brasil. Os mais pobres, que foram empurrados para viverem em locais incompatíveis com a vida, se despedem dos seus familiares enterrados nas lamas que descem dos morros, ou afogados nas águas poluídas dos rios e córregos. Apesar das tragédias de março, há quem ganhe com isso: a mídia aumenta a sua audiência e o seu faturamento, trazendo para dentro das nossas casas as cenas do sofrimento alheio… mais uma das contradições humanas!
Ainda bem que quando março termina vem abril, começa o outono, o tempo do sol amarelo nos finais da tarde, das noites de lua cheia, do céu azul e da brisa amena que refresca a alma da gente. É o tempo do café com leite e do pão com manteiga nas cafeterias de Vitória, onde os corpos e as mentes encontram o seu cais, após um dia intenso de trabalho. Madalena, numa nova etapa de vida, mãe de primeira viagem, após uma longa caminhada pela vida, só tem olhos para a divina missão, confessa as suas dúvidas, alegrias e o cansaço físico, haja disposição física para acompanhar uma criança! Antônio Henrique, com os seus mistérios, silêncios e fala mansa, é a fonte de muitos saberes sobre a ciência e a vida, a jorrar sobre nós.
Nem mil cafés com leite e mil pães com manteiga serão capazes de esgotar o que esses dois amigos têm a dizer. Conviver com eles, no trabalho, durante uma longa jornada foi uma das doçuras que a vida me proporcionou.
Veio a aposentadoria, a vida institucional ficou para trás, e os quase trinta anos de convívio diário e de conhecimento de cada canto do IFES não existem mais. Esse é o caminho do tempo. Agora, ando numa nova estrada, com novos aprendizados em cada curva do tempo, mas, não apago as luzes que iluminaram a minha alma.
Após um tempo de recolhimento, que a pandemia nos impôs, os cafés com leite e os pães com manteiga estão voltando. Os assuntos do trabalho não ocupam mais um lugar de destaque, agora são as reflexões sobre um novo tempo, que já chegou para mim e se aproxima para eles.
Queridos amigos, venham logo! Muitos e muitos cafés com leite e pães com manteiga nos aguardam nas cafeterias de Vitória.
Oscar Rezende
Buenos Aires, outono de 2022
Deixe um comentário