Nada melhor para remexer o passado do que folhear um álbum de fotografia! Quanto mais velho o álbum mais embaçadas são as fotos, assim como as nossas lembranças que vão se tornando turvas com as voltas da terra. De tempos em tempos a minha companheira limpa e organiza os álbuns de fotografias da família, eu aproveito para bisbilhotar as fotos enquanto faço uma viagem ao passado.
A primeira fotografia do primeiro álbum retrata a gênese da família. É uma foto tirada numa tarde de inverno em que eu e ela saímos para passear de bicicleta no campus da UVF (Universidade Federal de Viçosa). Eu a fotografei sentada num dos belos gramados da universidade, o sol amarelo do entardecer iluminava o perfil do seu rosto e aquecia a minha alma. Ela estava tão linda que tremi as mãos e o coração na hora de fotografar! As demais fotos do álbum são imagens que revelam a aproximação das nossas almas: ora dançando nos salões iluminados pelos nossos encantos, ora caminhando nos cantos escuros das nossas diferenças. Foi um tempo em que a felicidade, a paixão, as dúvidas, os medos e a coragem se misturavam.
O álbum de casamente exibe o início de uma caminhada de quarenta anos, a capa que já foi branca hoje está encardida e as fotos ficando rosas. Folhear esse álbum me leva ao tempo em que a ansiedade era minha companheira. Iniciava-se a busca por algo muito além dos desejos do corpo, e eu como não sabia por onde começar, deixei que a intuição me conduzisse… o amor não vem com um manual de instruções, ele invade o coração da gente sem que a ciência consiga explicar!
No álbum de fotografias do primogênito eu estou sentado na cama, todo sem jeito, segurando no colo o recém-nascido… uma foto bem cafona: eu vestia uma camisa verde, bem surrada, calça de moletom e chinelos de dedo com meias, pois era julho, e em Viçosa (MG) fazia um frio de lascar. As fotos desse álbum retratam o início de uma nova vida que nasceu dentro da minha: a vida que me aproximou do sagrado. As fotos dos álbuns do outro filho e da filha me ensinaram a multiplicar o amor, e entender que cada ser humano é único… desde cedo, ainda no berço, ele inicia a sua luta para pertencer ao mundo que o destino lhe presenteou.
As fotos da infância dos meus filhos revelam a alegria deles e o pouco sossego meu: aniversários, passeios em parques, viagem para casa dos avós, praias… são as fotos que adubaram o broto do ramo que deu origem a minha família na grande árvore da minha história.
E as da adolescência? Adolescentes! Nada pode ser mais chato! Como bem define uma irmã: “filho adolescente é igual a peido da gente, só nós aguentamos”. Geralmente, essas fotos retratavam os meus adolescentes com as caras emburradas, provavelmente achando um saco as intermináveis sessões de fotos abraçados com pai, mãe, primos, tios e avós, durante as festas familiares. A lembrança dessas fotos me levam às madrugadas que andei pelas ruas de Vitória (ES), buscando os filhos em festas, baladas e forrós… o coração quase sempre ficava apertado, temendo que o acaso me pregasse uma peça. Foi um tempo de muito aprendizado, me fez entender que não sou dono dos destinos dos meus filhos… a nós foi dada a missão de trazê-los ao mundo e apontar-lhes o caminho a seguir, daí em diante são as suas próprias pernas que os conduzem.
Quando vejo as fotografias, agora digitais, das formaturas, dos casamentos dos filhos e do nascimento dos netos, tenho uma sensação de leveza, é como se elas estivessem ali me ensinando o caminho da paz.
Após serem limpos e organizados, os álbuns de fotografias retornam as suas moradas: uma prateleira isolada em um canto do armário, onde permanecem esquecidos até que alguém deseje remexer no seu passado, ou mostrar aos que estão chegando de onde vem a sua essência.
Saravá!
Oscar rezende
Vitória, outono de 2022
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