Retrato oficial

Vez ou outra, vejo nas redes sociais retratos de meninos e meninas calçadenses da minha geração. A foto é de uma criança sentada, com os dois bracinhos cruzados sobre uma mesa, tendo do lado direito alguns livros e do esquerdo, uma miniatura da bandeira do Brasil em um mastro. À frente, uma pomposa placa onde está escrito: 2° ANO GRUPO ESCOLAR MANOEL FRANCO. Se menino, o aluno veste calça curta azul, camisa branca e gravata azul; se menina, veste saia vermelha, blusa branca e gravata vermelha. As gravatas são marcadas com listras brancas, que variam de uma a quatro, para conferir a série que a criança frequenta. Estes eram os uniformes oficiais do Grupo Escolar Manoel Franco à época. Na foto, o aluno(a) traz um leve sorriso nos lábios ou uma fisionomia séria um pouco assustada, no entanto, o semblante de ambos não esconde o orgulho daquele momento.

Carreguei durante três longos anos da minha infância a frustação de não ter estudado no Grupo Escolar Manoel Franco e de não ter sido agraciado com aquele retrato oficial. Até o terceiro ano primário, estudei na Escola Singular da Fazenda Velha, uma escolinha na roça, muito simples e com uma única sala. As aulas eram em dois turnos: os alunos do 3° e 4° anos estudavam no período da manhã, misturados na mesma sala e com uma única professora; os do 1° e 2° anos, estudavam à tarde, nas mesmas condições. Mas, como dizem por aí, o mundo dá voltas… na 4° série tudo mudou: eu fui estudar no Colégio de Calçado… passei da condição de invejoso para a de invejado. O nosso uniforme da 4° série era o mesmo dos alunos do ginasial: calça comprida de cor caqui, camisa também caqui, um pouco mais clara, sapatos e meias pretas. As meninas vestiam saia azul, blusa branca, meias brancas cobrindo a canela, e sapatos pretos. Quando eu subia a ladeira em direção ao colégio e encontrava algum aluno, também do quarto ano, que estudava no Grupo, vestindo calça curta, eu mostrava todo meu orgulho e “superioridade”, posando de cabeça erguida com a minha calça comprida.

Antes de encerrar essa pequena prosa, vou trazer outras lembranças da época. O deslocamento da cidade à Fazenda Velha, era feito na velha jardineira chevrolet, dirigida pelo Sodré, que fazia a linha Calçado-Bom Jesus. Embarcávamos no ônibus às 11h30, na Fazenda Velha, e, às 17h30, retornávamos. Nos períodos de chuva, enfrentávamos uma verdadeira aventura… Nos três primeiro quilômetro a viagem seguia tranquila, pois a estrada era calçada com paralelepípedos; dali à sede da Fazenda é que complicava. Muitas vezes a estrada ficava intransitável, mesmo com corrente nos pneus o velho ônibus não conseguia vencer os três quilômetros de estrada de chão até a Fazenda… éramos obrigados a tirar os nossos sapatos e continuarmos a viagem a pé, amassando barro. O problema estava em tirar os sapatos… naquele tempo, mamãe comprava para os filhos uns sapatos pretos de borracha, que apelidamos de “tá na merda”, pois esquentava os pés e soltava um suor preto que produzia um chulé insuportável. Tirar aqueles sapatos e carrega-los nas mãos era um perigo, pois corríamos o risco de sermos atacados pelos urubus que ficavam à espreita de uma carniça.

E assim, o tempo vem me conduzindo, deixando lembranças que aquecem minha alma!

Oscar Rezende

Vitória, inverno de 2022

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