A escada do Salão Nobre

O céu azul e o sol amarelo da tarde de inverno aqueciam minha alma. Atravessei o pequeno portão de ferro e pisei com o pé direito no primeiro dos três degraus da escada de acesso ao suntuoso prédio…  olhei para cima, e o cinza carrancudo, muito familiar aos calçadenses, ofuscou os meus olhos. Senti arrepios pelo corpo! Ressabiado, dei mais alguns passos…  entrei!  Olhei à direita e lá estava a mesma sala, só que agora com várias pessoas sentadas atrás de computadores, confundindo  as minhas lembranças, que teimavam em enxergar   uma senhora elegante sentada à mesa, no centro da sala, cheia de papeis e anotando várias coisas,   portando uma caneta tinteiro;  num dos  cantos da sala a minha lembrança viu uma velha  máquina de datilografia,  que ecoava o seu  tec, tec, tec em  sintonia com o  batido surdo  do   carimbo,  que imprimia na pequena caderneta:  em azul PRESENTE e em vermelho FALTOU.

Ainda atordoado pelo passado, olhei à esquerda e me deparei com outra sala, em que estavam, ao redor de uma mesa, um grupo de jovens…  eternos batalhadores e sonhadores da educação, que, sob a liderança de Vinicius, são os atuais responsáveis por construírem o presente e o futuro do meu passado. Segui em frente… olhei à esquerda e mais uma sala, que reconheci como a que estudei na 3ª série ginasial; olhei para a esquerda e só vi uma parede, onde havia uma porta que dava acesso à outra sala; dei mais alguns passos na esperança de encontrar o imenso pátio, onde eu conversava com os colegas, paquerava uma menina  e assistia os ensaios  da  banda do colégio… mas, que nada, os   meus olhos só encontraram uma fria parede lateral de um ginásio de esporte. Fiquei atordoado:

—  Meu Deus! O que fizeram com a minha memória? Onde está o meu colégio?

Recuei alguns passos e olhei para cima… lá estava a majestosa escada que dá acesso ao Salão Nobre. De repente, meus olhos se encantaram de emoção: estavam sentadas na escada algumas das almas que habitam aquele espaço sagrado.   Elas sorriam e faziam sinal para que eu subisse a escada. No primeiro degrau estava d.  Hyrtes, sempre muito elegante! Ela pegou minha mão e me levou ao segundo degrau, sussurrando aos meus ouvidos o que é um sujeito, um verbo, objeto direto, indireto, complemento verbal… Me entregou ao professor Aderbal, que mascando o seu cigarro no canto da boca,  me contou,  “tintim por tintim”, como funciona o Aríete Hidráulico. Segurando a minha mão com a firmeza da sabedoria, o velho mestre me entregou às mãos suaves e doces da professora Penha Malheiros, que me contou lindas histórias sobre os faraós e as pirâmides do Egito.   

Eu já não precisava mais subir a escada, as minhas emoções se transformaram em felicidade, eu já havia esquecido o impacto que o passar do tempo havia feito com a minha memória, assim que cheguei.  Uma voz me chamou:

— Venha, suba mais um degrau, quero lhe ensinar o que é um carroção e uma equação do 2° grau.  Era o professor Antônio Amaral, que com o seu jaleco branco sorria para mim. De repente, escuto outro chamado:

— Não se acanhe, deixe de ser tímido, suba até aqui, quero lhe mostrar como a geometria plana é importante para você entender o mundo lá fora. Era dona Lélia, que com a sua elegância séria, sem ser carrancuda, me dava as mãos para subir mais um degrau.

Faltavam ainda dois degraus para que eu chegasse ao topo da escada, quando senti aquele “perfume” que tanto conhecemos! Era o Padre Amando, que não estava emburrado…  até sorria para mim, lembrando da fábula de La Fontaine, “ le corbeau et le renard”,  que declamei no seu aniversário, por puro  desespero, implorando um 100 para não reprovar.  No último degrau estava ela, a alma do professor, primo de minha mãe e amigo da família, Epaminondas Gomes Moreira, que me conduziu para o interior do salão, me segurando com uma   mão e com a outra um microscópio, contando as  descobertas de  Antony Van Leeuwenhoek.

Cheguei ao salão nobre acompanhado das almas que me ensinaram a subir os degraus do conhecimento. Olhei para o salão…  nada havia mudado, até a cortina do palco era a mesma. Ali aconteciam as solenidades cívicas, os bailes de formatura e as peças teatrais. Caminhei até à sacada do salão, olhei para o céu azul e para sol amarelo de inverno que iluminava a cidade… minha alma estava renovada pelas emoções. O tempo mudou a estrutura física do Colégio de Calçado (era assim que chamávamos), mas, enquanto eu viver ele estará, do mesmo jeitinho, na minha memória.  

Viva!  Viva! E muitas vivas ao nosso Colégio de Calçado.

Oscar Rezende

S. J. do Calçado, inverno de 2020.

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