Hoje estava relendo um dos clássicos da literatura brasileira, Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Ao ler o capítulo sobre a morte da cachorrinha Baleia, que recebeu um tiro de Fabiano no quarto traseiro, por acreditar que ela estivesse doida, fui envolvido de tal forma pela leitura, que o autor me conduziu às profundezas dos pensamentos da cachorrinha. Ela não tinha noção da morte e do ódio, só sentia os incômodos do corpo e vontade de morder a perna de Fabiano, pelo que havia lhe causado. Enquanto as suas forças se esvaiam, ela adormecia, se mudando para um mundo cheio de preás, gordas, enormes. Como seria lindo morrer assim!
A releitura desse livro, numa fase da minha vida em que me encontro mais reflexivo sobre o tempo e a vida, me fez pensar sobre o poder da finitude. Tenho comigo que tudo que move o homem é comandado pela perspectiva da sua finitude, e dos mistérios que a acompanham. O tempo, que nos dividi entre passado, presente e futuro, insiste em jogar luz na eminência da morte e nas suas consequências para a nossa harmonia interior. O homem, diferente da Baleia, é o único ser vivo que se incomoda com a morte; o seu modo de vida o obriga a se apegar a uma religião, para construir sua fé e ajudá-lo enfrentar a ideia da morte. A essência da maioria das religiões é nos ensinar que a morte não é o fim, mas apenas uma passagem, em que o corpo deixa de existir, mas a alma (espírito) continua a viver em outra dimensão, que dizem ser o Céu, o Inferno e o Purgatório.
Eu gostaria muito de acreditar que não existe um fim, e que vamos continuar vivendo do lado de lá, num mundo cheio de preás grandes e gordas, como no mundo da Baleia, mas, não basta o meu desejo… até fui educado para ter fé e acreditar na vida eterna, mesmo assim, deu no que deu! Não finjo que tenho essa fé, procuro traçar o meu caminho incorporando um Deus que está dentro de mim, e não o Deus soberano da maioria das religiões. Acredito que a vida começa ao nascer e termina com morte… o depois volta a ser o que era antes! Ou seja, o nada. Não falo isso com soberba, e nem com angústia, pois deixo por conta do meu Deus, que me ensinou a nascer e vai me ensinar a morrer.
O que importa é o que fazemos no tempo que vivemos. O nosso Céu e o nosso Inferno estão dentro de nós. Quem pratica o mal, vai penar no seu Inferno interior, e não será feliz, ao contrário, quem pratica o bem vai viver no seu Céu interior, que se reflete na paz que carrega consigo. Mas, como somos humanos, vivemos mesmo é no nosso Purgatório, pois estamos numa constante luta entre o bem e o mal que habitam o nosso interior.
Ah! Só mais uma coisa: se ao me aproximar do fim, perder a consciência, ou seja, ficar caduco, não tenham pena de mim… ao contrário, pensem que recebi uma dádiva do meu Deus, que está me ajudando a despedir da vida, como fez o Deus da Baleia.
E vamos caminhando no tempo, um tempo que necessita de muito amor, solidariedade e sabedoria, até a sua finitude.
Oscar Rezende
Vitória, inverno de 2021
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