Réquiem de um sonho

Chovia lá fora! O frio congelava a alma de Rodolpho. Lisa escutou a porta do quarto se abrindo. Pelo barulho dos passos sabia que era ele.  Rodolpho chegou com um sorriso aberto, como se tentasse lhe dizer que nada daquilo estava acontecendo, e que tudo ficaria bem. Na mão esquerda carregava um buque de margaridas amarelas, a flor que costumava roubar dos jardins de sua mãe e enfeitar os seus longos cabelos, quando visitavam a fazenda dos seus pais durante às férias da universidade. Beijou o seu rosto com seus lábios grossos, que enchiam Lisa de prazer nas noites calorosas em que ele roçava as suas virilhas, em um vai e vem, que aumentava com o ritmo da sua respiração… como ela gozava! Lembrou de como Rodolpho a pegava nos braços, e a despia com cuidado:  acariciava todo o seu corpo e a penetrava com virilidade, até invadir a sua alma com o prazer, espalhando pelo ar o    cheiro do amor.

— Lisa, como está se sentido hoje? — perguntou Rodolpho, acariciando levemente sua testa. —Seus olhos brilhantes me dizem que está bem!

Lisa sabia que ele mentia…  mesmo sem se olhar no espelho, ela sentia os olhos ressecados e ardentes.

— Passei bem a noite — Mentiu Lisa!

A noite havia sido terrível, as dores não lhe abandonaram um minuto, nem mesmo a morfina que a enfermeira lhe aplicara adiantou. Mas não quis dizer a verdade, para que ele não se sentisse ainda mais triste. Apesar do esforço de Rodolpho para fingir que estava tudo bem, os seus olhos  vermelhos não   desfaçavam o choro recente.

— Quando você sair o hospital vamos fazer de novo aquelas cavalgadas na fazenda, subir a montanha e apreciar a lua nascer no horizonte — disse sorrindo Rodolpho. —  Lembra daquele verão em que subimos a montanha e amamos ao som de uma brisa quente, que acariciava os nossos corpos nus iluminados pela lua?

— Como posso me esquecer! —  Respondeu Luísa. —Ainda éramos estudantes na universidade…  Ardíamos de paixão e juramos amor eterno.  O seu coração batia tão descompassado que fiquei até preocupada lembra?

— Verdade! E ele continua batendo descompassado até hoje por você  — respondeu Rodolpho, segurando as mãos  de Lisa  e  beijando os seus  lábios  com todo cuidado, para não remover o tubo oxigênio da  sua narina.

Mesmo com os olhos ressecados, as lagrimas romperam a fria barreira e escorreram pelos cantos dos olhos de Lisa. Ela sabia que não adiantava mais fugir da verdade. Pediu que ele se aproximasse ainda mais, apertou as suas mãos e disse, com a voz fraca:

— Rodolpho, olha o soro, ele já não desce mais; o meu corpo está rejeitando até esse alimento artificial. Sinta os meus dedos! Veja como estão frios nas pontas! Sabe que significa isso?

— A temperatura do ar-condicionado está muito baixa, vou aumentar, além disso está frio lá fora e as suas mãos estão descobertas! — despistou Rodolpho, tentando justificar.

— Não, você sabe que não é isso, meu amor!  Chegou a hora — disse Lisa, murmurando. — Fique em silêncio e segure minhas mãos, quero levar um pouco do seu calor.

Rodolpho atendeu o pedido e olhou para o rosto de Lisa… a beleza não estava mais ali… foi se esconder na alma que ainda habitava o seu corpo frágil.

— Estou aqui ao seu lado, não pense bobagens! Quando você se curar, retomaremos as nossas vidas — disse Rodolpho… uma frase solta e sem sentido que não foi mais ouvida por Lisa.

Um calafrio violento apoderou-se do corpo de Lisa, a dormência avançou dos pés, passou pelas pernas e seguiu em direção ao abdômen, onde a maldita doença havia começado, e ali se alojou, provocado uma dor profunda.  Os seus pulmões rejeitaram o oxigênio bombeado, provocando uma sensação de afogamento. De repente, uma mão poderosa agarrou-a pela cintura. Lisa sentiu-se  invadida por um medo terrível! Seria a morte? Em resposta, uma luz tomou todo o quarto.  As dores cessaram, e o seu corpo foi arrastado para dentro de um redemoinho de luzes e começou a rodar e a flutuar.  Escutou muitas vozes que a chamavam pelo nome, reconheceu a dos seus pais; viu cenas da infância; do casamento com Rodolpho; da morte trágica dos pais no acidente; sentiu as mãos de Rodolpho segurando as suas;  sentiu o cheiro  das deliciosas comidas que Rosa preparava, quando ela Rodolpho, ainda tímido na presença dos seus pais, passavam  as férias de verão na  fazenda. Subitamente foi invadida por uma sensação de felicidade:  o redemoinho de luzes foi se apagando e o silêncio tomou  o seu lugar… O nada se fez presente!

Oscar Rezende

Buenos Aires, inverno de 2022

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