O palco da vida

— Vamos, o carro chegou! — disse ela, vestida com elegância, como a ocasião exigia.

As marcas dos anos já se faziam presentes no seu belo rosto de nariz afilado; seus olhos negros, ainda brilhantes, irradiavam a calma de quem já aceitou a submissão ao tempo. Afinal, estávamos juntos a quarenta e cinco anos.

— Os meninos e as crianças, já foram? — perguntei ansioso.

— Sim! Já nos esperam à porta do teatro.

O jovem reporte, com curiosidade juvenil, perguntou:

— Por que só agora, aos setenta anos, publicou o seu primeiro livro?  Está surpreso com o prêmio Jabuti?

As respostas foram vagas.

Aplausos! Aplausos! Aplausos!

Subi ao palco, me senti pequeno diante de tantas homenagens. As luzes dos holofotes turvaram meus olhos, não enxerguei mais ninguém, me senti sozinho e assustado.

A voz do Zé Mané, me chamou lá de fora:

— Vamos pescar bagre? Depois da chuva a água fica turva e os bagres aparecem.

— Pode ir! Mas cuidado com a correnteza José Manoel, ele só tem oito anos — advertiu mamãe.

Eu não entendia nada, estava muito assustado, meu coração batia forte. A linha pendurada na vara de anzol armado à beira do córrego corria de um lado ao outro, riscando as águas calmas do remanso… por que ele não tirava o peixe da água? Com os olhos cheios de lagrimas e sem poder chorar alto, eu sentia o peso do seu corpo nas minhas costas, e um ardume terrível.

Aplausos! Aplausos! Aplausos!

Eu ainda não acreditava no que   estava acontecendo…. Um escritor é forjado pelo tempo. Não era justo eu ganhar esse prêmio!  Sentada na primeira fila, com uma das netas no colo, ela enxugava as lagrimas! Lagrimas sinceras, pois o tempo amalgamou a nossa união.

Mamãe, me segurando no colo, ensinava que era pecado mortal fazer bobagem, e dizia para eu não deixar ninguém fazer bobagem comigo.

— Meu Deus! vou para o inferno — pensava eu, guardado dentro de mim o grito de libertação. — Por que Deus fazia isso comigo? Me diziam que ele era bom, mas eu não sentia!

Quando Zé Mané passava pelo terreiro, carregando sua enxada nas costas,  e me chamava, eu me escondia….  como tinha medo dele!  Só conseguia brincar lá fora quando alguém estava por perto. Juro que cheguei a pensar que seria melhor morrer! Mas logo desistia, pois vinha o medo do inferno.

A voz da experiente jornalista, especializada em literatura, sentada em uma cadeira confortável, separada da minha pela  mesinha baixa, redonda e com um jarro de flores em cima, me trouxe de volta. Com a voz ainda tremula, respondia as suas perguntas.

Aplausos! Aplausos! Aplausos.

No dia da primeira comunhão menti para o padre no confessionário! Olhei para o teto da igreja e lá estava Deus, com os seus dedos apontados em minha direção, me indicando o caminho do inferno. Meu Deus! Como era difícil viver…  Parei de gostar de Deus!  

Mesmo estando sempre recolhido dentro de mim, surgiu o primeiro sinal do amor: um sentimento confuso, que foi se perdendo no meu emaranhado… não deu certo!

— Por que começou a escrever só agora? — perguntou a jornalista, repetindo a pergunta do jovem reporte na entrada do teatro.

— Primeiro tive de cuidar das coisas terrenas: estudar, trabalhar, casar, ter filhos e educar filhos, que como você sabe, não é nada fácil — disse eu, me sentido uma pessoa inteligente.

— Será que estou ficando soberbo? —  perguntei a mim mesmo.

Aplausos! Aplausos! Aplausos!

Por que o amor não vinha? Será que havia se perdido na minha estrada deserta, dura e empoeirada, sob o sol escaldante do tempo?  Ou será a ira de Deus, por eu desprezá-lo?  

— Quais foram as suas influências literárias? — perguntou a jornalista.

Enumerei algumas, mas sem nenhuma convicção.

Aplausos! Aplausos! Aplausos!

Hoje, estou aqui vivendo a plenitude do amor.

— Você define o seu livro como autobiográfico? — perguntou a jornalista.

— Não sei!  Essa dúvida deixo aos leitores — respondi. — Mas, existe uma certeza:  ele veio de dentro de mim.

Aplausos! Aplausos! Aplausos!

Oscar Rezende

Vitória, primavera de 2022.

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