Se tem uma companhia indigesta na vida, um encosto que não larga do pé, é a morte. A única maneira de se livrar dela é não nascer, mas, como essa solução não está à mão, o jeito é conviver com ela. E olha que essa convivência ultrapassa a própria morte! Depois eu explico!
Não há nada mais belo do que a gravidez, é o sinal de que uma vida está chegando, mas, ninguém se lembra que junto dessa vida vem o encosto da morte. No início, na infância, o encosto da morte não perturba, pois a ideia da própria morte, para uma criança, está muito longe, e não lhe causa preocupação no presente; no entanto, a morte arranja um jeito de perturbar a inocente criança, entra nos seus sonhos e fica a buzinar aos seus ouvidos:
— Sua mãe vai morrer! Seu pai vai morrer! Os adultos vão morrer! O seu cachorro vai morrer!
Uma das torturas na infância! A criança acorda desse pesadelo, toda suada, chorando de medo e de tristeza; o encosto, não satisfeito, a torturar ainda mais, criando os fantasmas de gente morta!
A adolescência ainda não é tempo de se perturbar com própria morte, no entanto, não há como escapar do encosto! Tem a morte dos parentes, que normalmente acontecem às vésperas de uma festa, de um baile, de um carnaval… Datas preferidas para a morte de um familiar, já bem velhinho, que os pais aproveitam para proibir, sem peso na consciência, os desejos das festas dos filhos.
Aí vem o tempo, o catalizador do encosto da morte, que ao te acompanhar pela vida, traz a morte para mais perto: morrem avós, os pais e alguns amigos; e ela buzinando aos seus ouvidos:
— Está chegando a hora de você morrer! Está chegando a hora de você morrer!
E você ainda se convence de que valeu a pena, que a vida foi linda, ou uma merda, e se entrega à morte para ir para o Céu, um Céu que você tenta se enganar que existe. Eu pergunto: tem um encosto mais cruel do que este?
Mesmo após a morte cumprir o desejo de te matar, e de te transformar em uma coisa coberta de flores e sem cor, dentro de um caixão, ela não te esquece.
— O relógio do meu pai agora é meu— diz um.
— Os livros e os discos do meu pai agora são meus— diz o mais intelectual.
— Vamos vender o carro e as casas, dá menos trabalho do que fazer testamento — diz o financista.
— Poxa! Eu achava que ele tinha mais dinheiro no banco? — diz o iludido.
E assim, a morte continua te acompanhado por algum tempo… só te deixa em paz quando você não existir mais na memória de ninguém e voltar a se transformar naquilo que era antes, o nada!
Como disse lá no início: “o jeito de se livrar da morte é não nascer”. Mas, mesmo vivendo com essa companhia indesejada, nascer valeu a pena. Sabem por quê? Porque tenho a companhia de vocês, que me ajudam a espantar esse encosto.
Oscar Rezende
Vitória, primavera de 2022
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