O enterro

O cachorro magro e sarnento sobe a ladeira vazia da cidade. O homem de chapéu Panamá e linho engomado desce a ladeira segurando entre os dedos amarelados pela nicotina um cigarro sem filtro. As vendas estão com as portas cerradas e os casarões emolduram em suas janelas rostos curiosos. O sol escaldante do meio-dia aquece as pedras do calçamento, que retornam ondas de vapor. O sino da Igreja emite, a cada trinta segundos, um único batido fúnebre. O enterro surge ao pé da ladeira!
O homem que desce a ladeira lança o cigarro na calçada e retira o chapéu em respeito. O cachorro magro e sarnento que sobe a ladeira para, vira e olha para o cortejo que o segue. Sem se importar, retorna sua caminhada, na esperança de encontrar uma vadia no cio que acalme a sua fome de sexo, já que a de comida não tem esperança de acalmar.
O sino continua o seu canto de agonia, o homem da ladeira passa por entre as coroas de flores, e se mistura às pessoas. No centro segue o caixão de madeira de lei, muito bem envernizada, rodeado por homens que se revezam em suas alças de prata. Logo atrás os familiares! Choros contidos e escandalosos se misturam ao barulho dos sapatos que pisam a pedra quente do calçamento. O homem da ladeira segura uma das alças do caixão e sente o peso da morte, por um segundo se imagina dentro do caixão! Logo tenta desviar o seu pensamento, mas não consegue: “Como não pensar na morte acompanhando um enterro!”, fala para si. O cortejo continua subindo a ladeira. Ao virar à esquerda o cortejo se depara com a igreja de cor cinza e torre única. Nas janelas idosos, empregadas domésticas e crianças acompanham, com olhos sérios, o cortejo. Ninguém sorri! É proibido sorrir para um enterro.
O cachorro magro e sarnento não teve sorte, não apareceu nenhuma cadela no cio! Seguindo o som irritante do sino, senta-se à porta da igreja para aproveitar a única sombra disponível e coçar as inquietas pulgas que, atiçadas pelo calor, picam seu corpo. De repente se depara com um monte de pernas que se aproximam, acha melhor se retirar, pois corre o risco de levar chutes que, por experiência, sabe que doem muito.
O homem da ladeira segue junto aos que se revezavam nas seis alças do caixão. Cumprimenta, com um movimento de cabeça, a esposa e os filhos do morto, abana o chapéu para espantar o calor e se afasta, deixando o cortejo entrar na igreja. Resolve esperar na porta, o calor está insuportável. Uma nuvem escura surge atrás da Pedra do Jaspe, trazendo um vento abafado que levanta poeira e forma um redemoinho em frente à cadeia pública: “será que o demônio veio buscar o morto?”, pensa o homem.
O cachorro magro e sarnento continua sua jornada. Levanta o focinho, sente o cheiro da tempestade no ar e segue em direção à rua dos eucaliptos, próxima ao hospital, na esperança de encontrar algum bicho morto para acalmar a sua fome, mesmo temendo raios e trovões a fome fala mais alto.
O sino silencia. O homem segue agora entre os últimos. A nuvem carregada avança sobre o colégio, uma descarga elétrica multicolorida corta a nuvem cinza-escuro e se choca com o solo, lá pelas bandas do Jaspe, um estrondo ecoa pelo ar. Outras descargas elétricas, seguidas de estrondos, assustam a terra! A nuvem cinza-escuro se transforma em cinza-claro, e lança riscos de chuvas pelo ar. Os passos se apressam, alguns saem do cortejo e se abrigam debaixo das marquises, nas calçadas, outros abrem os guarda-chuvas pretos e continuam acompanhando o cortejo.
O cachorro magro e sarnento sobe a rua dos eucaliptos, corre apavorado, sem saber para onde ir, tentando se desviar dos galhos lançados pelos uivos do vento. As pernas, agora apressadas, vêm em sua direção. No desespero, com medo de ser chutado, segue em disparada para o cemitério. Encontra um buraco e entra, aninhando-se, tremulo, ao lado de um saco, sujo e fedorento, cheio de ossos.
O cortejo segue rápido, passa agora em frente ao hospital. “O diabo já se manifestou no redemoinho, e agora esse pé d´água. Parece que ninguém quer esse maldito defunto!”, pensa o homem, com um leve sorriso nos lábios.
O cachorro magro e sarnento escuta barulho de sapatos batendo no solo. De repente vê algo pesado e duro entrar pelo buraco e bater na sua cabeça. Sente uma dor terrível, que o deixa tonto e quase sem enxergar. Após muito esforço, consegue escapar passando por cima do caixão. Gritando de dor e desviando das pernas que tentam chutá-lo, se esconde atrás de uma sepultura. Sente o gosto do sangue quente a lhe escorrer da cabeça, aos poucos a dor se acalma. Já está acostumado, acredita que a vida é assim mesmo: pancadas, dores pelo corpo, frio, pulgas a lhe sugar o sangue e estomago vazio.
O sol volta a brilhar! O homem sai do cemitério, acende um cigarro, põe o chapéu na cabeça e desce a ladeira rodeado por outros homens e mulheres, que conversam em voz baixa.
O cachorro magro e sarnento também desce a ladeira! Para, olha para trás, e vê as pernas que lhe seguem, mas, não quer ser chutado. Apressa seus passos e desaparece nas ladeiras vazias da cidade.

Oscar Rezende
Vitória, verão de 2025

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