Abrem-se as cortinas da minha memória! A primeira lembrança que sobe ao palco é de uma cama de hospital em um dos quartos da nossa casa. É uma imagem bem nítida que ainda carrego; eu olhava para cima e admirava os ferros e as molas da cama, só não me lembrava quem estava na cama! Afinal eu acabara de fazer três anos. Soube mais tarde que era mamãe, ela havia sofrido um espasmo cerebral, em uma noite chuvosa de Natal, consequência de um parto difícil ocorrido há seis meses. Me contaram que foi longo o período de recuperação da mamãe, incluindo uma temporada nas areias monazíticas de Guarapari. Na mesa, com o quadro negro ao fundo, sentava a prima Maria Olinda. Tinha à sua frente duas fileiras de carteiras, de dois lugares, ocupadas por crianças assustadas que juntavam b com a e b com e. Homens rudes, com pratos de ágata nas mãos, comiam com fúria, sentados no banco da varanda da cozinha, segurando as colheres como se fossem ferramentas utilizadas para mexer a terra.
Mais um ato… As cortinas abrem-se novamente, e entram em cena: os gritos enérgicos do Jaime, o carreiro que comandava o carro de bois que descia das lavouras carregado de café; o som das frutas-pão que caiam no chão atrás do galinheiro e a algazarra dos gaúchos que se recolhiam para dormir na figueira da curva do rio. Sinto ainda o cheiro do alho fritando na panela; do frango assando no forno do fogão a lenha; e do corpo suado da Lica me carregando em seu colo robusto, para me mostrar o que havia dentro da panela. Tremia de medo do zunido dos raios atraídos pelo para-raios que ficava atrás da casa, ao lado do quarto onde dormíamos, durante as tempestades. Meu coração acelerava na fila da vacina, na Escola Singular da Fazenda Velha, onde a equipe do posto de saúde torturava crianças. Várias vezes tentei me esconder pelos matos ao desconfiar que ela vinha, mas alguém sempre me encontrava.
No palco das minhas lembranças chega agora o ônibus de seis bancos de madeira que vinha da Fazenda da Segunda: ele buzinava, parava em frente à nossa casa, esperava papai subir no estribo, e então, partia para a sua viagem até S. J. do Calçado, onde papai comercializava café. Nas noites escuras as luzes dos vagalumes iluminavam a minha alma e a estrada que nos trazia de volta da casa dos meus velhos tios, Zezé e Mulatinha, a quem fazíamos visitas semanais, após o jantar.
O ato das dores da infância é intenso: o mertiolate ardia como fogo ao ser derramado na pele esfolada por uma queda; o carnegão de um furúnculo arrancado pelas espremidas de dedos fortes doía tanto que eu chorava de desespero. Também me lembro das dores da alma: ainda escuto o tiro de espingarda que atingiu a cabeça do Veludo, o meu cachorro, que diziam ter endoidado ao morder uma mulher doida que morava no alto do morro atrás da Usina S. José; ainda vejo o sangue do meu cabritinho espalhado pelo chão de um dos cômodos da Usina S. José, onde ele foi morto após ter sido roubado. Também sinto na alma a dor de escutar, às quatro horas da manhã, os gritos do porco apunhalado no coração, me obrigando a cobrir a cabeça com o travesseiro, para tentar me esconder do seu sofrimento.
A cena final no palco das minhas lembranças é a das obrigações: levantar antes da sete da manhã para tratar dos porcos com uma lavagem fedorenta; debulhar o milho e ir ao moinho para fazer o fubá; pegar o velho cavalo baio, manso e trotão incorrigível, para ir a Calçado, na máquina do Mateus, pilar arros; buscar água para beber na mina de águas límpidas, que ficava no alto de um morro, tendo que desviar das vacas de bezerro novo, que gostavam de dar galopes na gente; e a pior de todas: encerar e passar escovão no assoalho da Fazenda, aos sábados de manhã.
E assim, fecham-se as cortinas do palco das lembranças da infância, um palco onde enceno as inspirações que carrego pela vida.
Oscar Rezende
Vitória, primavera de 2022.
Deixe um comentário