Desesperado, eu chorava e reclamava com mamãe da camisa do uniforme rasgada nas costas… da calça que encolhera, deixando a metade da canela para fora; de repente eu estava no palco contracenando com Rita, a minha primeira e única participação como ator de teatro, numa peça produzida por minha mãe, e encenada na escola singular da Fazenda Velha, onde eu estudava. Estava com nove anos. O leite em pó, de cor creme, fervia em um grande caldeirão de alumínio; ele vinha em uma caixa de papelão com o desenho de duas mãos que se cumprimentavam, tendo nos punhos as bandeiras do Brasil e dos Estados Unidos (essa doação estadunidense fazia parte do golpe que derrubou o governo João Goulart). Eu detestava aquele leite servido em canecas de plástico coloridas, o gosto era horrível! Estranho ao meu paladar.
Após primaveras, a primavera trouxe a independência. A cidade vestiu-se com gala: os postes foram pintados de branco do meio para baixo, iniciando com duas faixas horizontais (azul e rosa) simbolizando a bandeira do Espírito Santo. Os meios-fios também foram pintados de branco, o calçamento muito bem varrido e nos jardins da praça as flores davam o toque primaveril. Para compor o cenário cívico o coreto das autoridades se vestiu com as cores da pátria.
O galo cantou bem longe, a companhia do despertador me assustou! Eu suava, apesar da brisa fria das manhãs de setembro. Ah! Que noite! A ansiedade não deixou o meu cérebro em paz, os pensamentos desconexos acompanharam o meu sono agitado… era o meu primeiro desfile de Sete de Setembro, após ter cursado o primário na escola singular da Fazenda Velha, na zona rural.
Fui um dos primeiros a chegar ao colégio no Colégio de Calçado, afinal era a minha estreia! Eu estava impecavelmente vestido: uma calça comprida e uma camisa, ambas de cor caqui, muito bem passadas, e sapatos pretos brilhantes; subi as ladeiras com todo o cuidado para não os sujar!
O início foi emocionante! Os pelotões formados no pátio do ginásio permaneciam em silêncio total, aguardando o primeiro apito que nos colocaria de prontidão. O segundo vinha acompanhado de duas fortes batidas dos Bumbos, seguidos pela sequência de sons das Caixas e do repique dos Tarois, comandados por Tiquinho, o grande tarolista, e dos pratos. A emoção invadiu o meu peito! Entrei em movimento: num ritmo coordenado do coração batendo forte e das pernas levantando e abaixando, em harmonia com os sons dos instrumentos da banda… Começava o desfile! E eu em transe!
Os alunos do primeiro ginasial, não eram destaque no desfile, formavam o último pelotão, de onde mal se escutava a “banda” que dava ritmo aos passos sincronizados da marcha, mas eu não me importava. Os destaques, os astros do desfile, eram os alunos dos cursos normal e científico. As moças, muito bem penteadas e com muito laquê nos cabelos, vestidas com saia e blusa brancas que, formavam o pelotão das bandeiras dos estados, acompanhavam o destaque, um pouco à frente, carregando a bandeira do Brasil. Outros pelotões de destaque: o das produções agrícolas do município, com moças e rapazes carregando os símbolos do café, do leite e do milho; o dos homens do científico, os mais fortes que, vestidos com short e camiseta, exibiam os seus físicos no pelotão dos atletas da educação física; e, o mais importante, o da banda marcial, comandada pela professora Terezinha Juliana. Eu, lá atrás, acompanhando tudo, sem perder um detalhe, com os olhos encantados com o que via.
Os maiores destaques individuais eram: a rainha da primavera, e as suas princesas, vestidas com roupas chiques e floridas, portando as respectivas faixas atravessadas no busto; e o garboso Dom Pedro I, montado em seu belo cavalo branco. Conquistar aquele posto era o sonho de qualquer rapaz! Além do prestígio, o Imperador era paquerado pelas belas mocinhas da cidade!
Comandados pelos professores: Terezinha Juliana, Judite Arantes, Venceslau e capitão Joel, descemos a ladeira ao lado da Igreja, marchando no ritmo determinado pela banda, para acessar o coreto das autoridades. Aplausos e mais aplausos nos receberam, em frente ao coreto.
Que sensação maravilhosa! Eu não enxergava nada ao meu lado, só vivenciava a emoção de ser o mais importante no meio daquilo tudo!
Oscar Rezende
Vitória, outono de 2023
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