Eu havia acabado de sair do moinho, fui buscar fubá para o almoço. De repente escutei um som de carro se aproximando, era um som diferente dos que estava acostumado! Muito mais alto que o do ônibus (jardineira), dirigido pelo Sodré, que fazia a linha Apiacá-Calçado, e passava em frente à nossa casa na Fazenda Velha.
Para o meu espanto, surgiu na estrada, no alto de uma lombada, um enorme caminhão, de um tamanho tão grande que me assustou. Vinha carregado de coisas estranhas: toras de madeira, compridas e finas; lonas grossas e coloridos e mais um monte de coisas, também coloridas. Sentados em cima daquilo tudo iam seis homens: cinco altos e fortes e um quase do meu tamanho, igualzinho aos homenzinhos da história que me contavam.
No rastro da poeira do imenso caminhão um caminhão menor, um pequeno ônibus e mais duas camionetes, carregados de tranqueiras, em uma imensa fila indiana; nas boleias iam uma gente estranha. Fiquei assustado! Nunca havia visto algo tão espetacular. Nem mesmo nas revistas que vinham do Rio de Janeiro!
Quando o cortejo passou, atravessei, a galope a estrada, e fui direto para casa… Alguém gritou lá de dentro:
— É um circo, é um circo, que está chegando em Calçado!
Quem me contou que íamos ao circo foi a minha irmã mais velha. Não sei nem descrever a emoção que senti naquele momento, mas foi a maior que havia sentido nos meus oito anos vividos na fazenda e de esporádicas idas à Calçada para visitar a vovó assistir festejos religiosos.
Na véspera do espetáculo viajamos para Calçado e nos hospedamos na casa de Vovó. O turbilhão de emoções começou após o almoço, quando uma algazarra de crianças, misturada com cantorias que eu não havia escutado, surgiu na esquina da rua e veio em direção nossa direção. Sentado na mureta da varanda escutei:
— Hoje tem marmelada? — Gritava um homem de quase três metros, com o rosto pintado
— Tem sim senhor! — Respondia um coro de crianças, correndo atrás do homem.
— E o palhaço o que é? — de novo o gigante.
— É ladrão de mulher — agora o coro.
De tempos em tempos o gigante jogava balas e as crianças, emboladas umas nas outras, corriam para catá-las no chão.
Quando o cortejo passou em frente, continuei inerte, hipnotizado pela cena inédita em minha vida. Confesso que tive uma mistura de sensações: medo, curiosidade e emoção. O meu coração bateu forte, mas não tive coragem de acompanhar a comitiva.
As emoções continuaram… À noite, eu estava pronto para o circo. Ao primeiro sinal da sirene saímos todos, acompanhados da Dinha, uma pessoa muito especial em nossas vidas que, morava com vovó. O circo estava armado atrás do Grupo Escolar Manoel Franco. Quando o segundo sinal soou, já estávamos sentados na arquibancada de madeira que, subi com alguma dificuldade, chupando um pirulito feito de açúcar queimado, o que, também, era novidade!
Até então, o que mais havia me chamado a atenção foram a luzes, muitas luzes! Os meus olhos estavam encantados… eles só tinham visto o brilho da lua, dos vagalumes, das estrelas e das lâmpadas fracas da fazenda.
Quando o terceiro sinal tocou fui ao delírio! Escureceu tudo, as cortinas se abriram e um foco de luz iluminou o homem:
— Respeitável público! Começa, nesse instante, o maior espetáculo da terra!
E foi mesmo! Os palhaços, o mágico, as rumbeiras, os contorcionistas…uma sequência de emoções. Mas, as duas maiores emoções estavam reservadas para o final: os trapezistas, dois homens e uma mulher que, davam saltos mortais, de um trapézio ao outro, sendo agarrados pelas mãos do mais forte dos homem, que ficava fixo, pendurado de cabeça para baixo em um dos trapézio. A última, e a mais emocionante de todas as cenas, foi o globo da morte: dois homens, vestidos com macacões justos e brilhantes, montavam uma bicicleta e uma moto, que fazia um barulho danado! A moto rodava num sentido vertical do globo e a bicicleta no sentido horizontal, numa sincronia perfeita, pois, qualquer vacilo poderia ser fatal.
Aplausos, aplausos e muitos aplausos… assim terminou o maior espetáculo da terra! Eu estava lá.
Oscar Rezende
Buenos Aires, julho de 2020
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