Todo mundo morre. Alguns aceitam, com resignação, esse maldito destino que a vida nos impõe, enquanto outros se rebelam. Conheço alguém que deu uma bela banana para a morte, dizendo em alto e bom som:
— Porra, sua babaca, não tô nem aí para você, eu sou esperto, sou carioca. Você achou que me pegaria com a calça na mão né? Seu deu mal sua babaca, eu nem vi você chegar! Há, há, há….
Pois é! Essa semana morreu um capixaba de coração e carioca de nascimento, o meu cunhado e amigo de longa jornada, Zé Rubens, o Carioca. Ele morreu com rebeldia, pois não deixou que a maldita morte tivesse o prazer de impor a ele a aceitação dos moribundos que, não tendo mais como lutar, se apegam às promessas religiosas de uma vida eterna. Carioca não! Ele foi rebelde…. Perdeu a consciência muito antes que ela chegasse, para não lhe dar o gostinho de ter vencido.
O convívio com o Carioca era bipolar: às vezes leve e às vezes estressante. Explico:
Quem conheceu Carioca e conviveu com ele nas grandes causas da vida, sabe da leveza da sua alma e da sua integridade e respeito com a família. Agora, nas pequenas coisas da vida, ele estressava e, ao mesmo tempo, alegrava os que viviam à sua volta.
Vou contar aqui algumas das suas manias que, estressavam a família:
Na velha casa dos meus pais em Calçado, construída por volta de 1930, tem quarto de sobra e banheiro de menos (um só). Depois construímos outro. Nas datas dos encontros familiares, para ir ao banheiro lá em casa era preciso estabelecer fila, e o Carioca era escalado para ser o último. Vocês acham que ele respeitava? Que nada! Pegava o jornal, entrava na frente de qualquer um, e ficava “cagando” por uma hora, para, em seguida, abria o chuveiro e se banhar por mais trinta minutos. Lá fora a gritaria e o xingamento corriam soltos! Ele, com sua surdes conveniente, não se alterava. Outra das suas era quando acampávamos. Saímos de madrugada, eu, as mulheres e as crianças, e íamos montar o acampamento, lá no Camping do Siri. Passávamos o dia inteiro naquela batalha: estica corda, levanta lona, arma barraca, puxa luz, enche colchão… quem já acampou sabe do que estou falando. Quando tudo estava pronto chegava o Carioca, dando uma desculpa qualquer (Eu tinha a certeza de que ele ficava escondido em algum canto, esperando tudo ficar pronto, pois fugia do trabalho físico igual o diabo foge da cruz) e dizendo:
— Porra, Caíse, essa corda não está esticada direito, se chover vai molhar aqui.
— Gabriel, vai pegar uma cervejinha gelada para mim.
Esse era o Carioca que estressava!
Carioca foi uma alma leve e sonhadora, viveu a vida acreditando que um dia se tronaria rico. Sempre me dizia:
— Porra, Caíse, tá pintando um negócio aí que vou ganhar uma grana.
Infelizmente esse seu sonho nunca se realizou. Todos os bens materiais que deixou couberam em uma pequena bolsa de viagem, inclusive um tênis novinho que herdei. Mas, o que deixou de herança de “bens da vida”, enriqueceram muitos corações.
Esse foi Carioca…
Oscar Rezende
Vitória, outono de 2023.
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