A visita

Era junho, fazia muito frio e a cerração cobria a cidade. Quando escutei o galo cantar três vezes, entrei silenciosamente e segui para a cozinha. Três geladeiras velhas. Uma azul, outra branca e terceira vermelha. Duas não funcionavam, e a azul servia de armário para guardar comida de passarinho. A vermelha estava em uso… Duas garrafas de água, três cervejas, algumas frutas, manteiga, uma banda de queijo e nada mais. Parece que quem está aqui, se é que tem alguém, não faz comida! Senti um frio na espinha, o silêncio me incomoda, sempre gostei dessa casa cheia de crianças, do barulho dos pezinhos pequenos correndo no assoalho de madeira e da gritaria no banho de banheira.

Há tempos não venho aqui, mas parece que pouca coisa mudou, só trocaram o forro e pintaram as paredes. Se bem que em casa velha as melhorias pouco aparecem! Nossa! que vento gelado foi este que passou? Estou arrepiada! Não é possível, ainda não trocaram aquele pequeno vidro quebrado da janela do banheiro? Uma coisa tão simples de fazer. Se eu ainda morasse aqui já teria resolvido, pois pode entrar morcego. Tenho pavor de morcego e de barata. Um dia, eu estava sentada nesta sala assistindo uma novela, fazia um calor danado e a janela estava aberta. De repente entra voando uma barata, ela bate no meu peito e desce para dentro do meu sutiã. Os meus genros estavam na sala, mas não me importei. Deixei a minha elegância de lado e, aos gritos, despi-me, ficando só de calcinha. Desta sala tenho muitas lembranças: alegres e tristes. Nos últimos anos que vivi nessa casa, sentava-me no sofá verde, que não está mais aqui, ligava a TV, mas não prestava atenção. Na mais profunda solidão, pois perdera meu grande amor e companheiro por mais de quarenta anos, eu rezava e pedia a Deus que desse as mãos ao meu filho caçula e o tirasse das drogas e do álcool. Quantas lágrimas solitárias eu derramei! Mas não foram em vão, ele se curou.

Segui até o quarto em que escrevia e não encontrei a escrivaninha, a estante com livros e a minha máquina de escrever… Será que jogaram fora? Esse quarto está sem os livros, os meus poemas e não tem mais os moveis, só essas duas pequenas camas: uma de cada lado da parede! Não gostei!

Escutei alguém tossindo no quarto que foi da minha sogra. Deitada na cama havia uma mulher, virada para a parede e com lindos cabelos cinza jogados em cima do cobertor. Meu coração acelerou. Era ela, a minha filha caçula. Olhei bem para o seu rosto… Tinha uma expressão suave e dormia profundamente. Continuava bela, só que agora envelhecida. Minha filha caçula! Quantas preocupações tive com você na adolescência e quantas alegrias me proporcionou durante a vida!

Continuei caminhando pela casa onde vivi por muitos anos. Na sala, os moveis eram os mesmos: as duas cristaleiras, o tajer e a mesa de seis cadeiras, moveis do meu casamento. Olhei as fotos em cima do tajer, e lá estávamos nós, nas bodas de prata: eu segurava no colo uma neta e ele segurava a outra. Hoje, as duas netas e a filha que, como eu, amava as letras, já estão com a gente. Dentro de algum tempo estaremos todos juntos novamente! Entrei no nosso quarto, a cama de viúva do tempo da Fazenda da Segunda que, veio junto com a minha sogra, ainda estava lá, O quarto estava vazio. Parece que ninguém dorme nessa cama, ela é pequena para os filhos compridos que geramos. Continuei caminhando suavemente pela casa, apreciando em cada canto às minhas lembranças.

Cheguei ao quarto grande, quarto que após a minha viuvez resolvi me mudar. Havia a um homem deitado na cama, só pode ser ele, o meu filho mais velho. Ele sempre dizia que esse quarto seria o dele. Cheguei bem perto do seu rosto, ele também estava envelhecido, dormia tranquilo e um pernilongo picava o seu nariz. Espantei o danado, pois ele reclamava muito dos pernilongos. O meu filho mais velho não me deu muito trabalho, saiu cedo de casa e nunca mais deu satisfação da sua vida. Acho que ele tinha ciúmes da atenção que dedicamos aos outros irmãos, principalmente à irmã que dormia no outro quarto, mas nunca reclamou de nada.

Ao primeiro sinal do amanhecer resolvi ir embora. Joguei um beijo de despedida para os meus filhos, atravessei o vidro da janela da varanda de inverno e fui embora. Gosto de fazer as minhas vistas assim, sem que ninguém me veja, para não assustar. Venho proteger os meus filhos e essa casa, casa que eles fazem de altar para cultuar a história da nossa família.

Oscar Rezende

Vitória, inverno de 2023   

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