Como diz a música de Rita Lee, uma das musas da minha geração: “a mulher é um bicho esquisito”. Aproveitando o deboche da nossa querida roqueira, vou generalizá-lo para a raça humana: “o homem é um bicho esquisito”.
Explico:
Quando criança, vivemos sonhando em sermos adultos, como se a infância tivesse que passar rápido, entretanto, quando viramos adultos vivemos sonhando em voltar à infância. Vai entender!
Na minha longa caminhada no tempo, tenho uma certeza: a infância é a “idade da ilusão”, onde é permitido à nossa alma viajar por todos os mundos imagináveis, indo e voltando no tempo, sendo o que você desejar: médico, bailarina, artista de circo, mocinho, bandido, dona de casa… Na infância fui tanta gente, que nem vou enumerar. Hoje, vou falar de duas delas.
Dos sete aos dez anos, quando ainda morava na Fazenda Velha, passei a entender a importância dos amigos e a conviver com duas pessoas que fui: o esperto e o bobo. Quando alguém da cidade vinha passar dias na fazenda, eu, com toda a soberba, exibia a minha face esperto: montava à cavalo, com perícia, até mesmo em pelo; escorregava lá do alto do pasto montado numa casca de palmeira, tomando cuidado para não enfiar a cara na cerca de arame, ao pé do morro; nadava no remanso; pescava; pegava taturana, perereca, rã e outros bichos, com as mãos, para me exibir perante aos visitantes; fazia gaiola, alçapão e arapuca de talo de folha de embaúba; construía carrinhos-de-boi, com latas de sardinha e rodas de mexerica… Até carrear eu sabia!
Já a minha face bobo se apresentava quando ia para Calçado, durante as férias escolares na Escola Singular da Fazenda Velha. Eu me hospedava na casa da minha avó, na rua Francisca Teixeira, vizinha à casa do primo João Bosco, o meu ídolo de infância e protetor do bobo na cidade perigosa. Eu não sabia ir ao cinema, o primo precisava me levar, eu não sabia brincar de mocinho e bandido, eu não sabia brincar de “Forte Apache” (Rogério Malheiros tinha uma coleção completa, eu morria de inveja!), eu não brincava de baleba embaixo da árvore em frente ao bar do Tião Machado, só observava. Aliás, eu tremia de medo de que algum dos craques me chamasse para jogar, felizmente nunca aconteceu, provavelmente a minha face de menino bobo espantava os espertos da cidade!
O tempo passou … Os meus sonhos continuam, mas agora só sonho com o que me dá prazer. Voltando à Rita Lee: “mulher é um bicho esquisito, todo mês sangra”.
Eu digo:
“O homem é um bicho esquisito, com o passar do tempo o coração sangra, só que de saudades”.
Oscar Rezende
Vitória, inverno de 2023.
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