Ontem recebi um simpático convite de um amigo dos tempos da juventude, para a comemoração do seu aniversário de setenta anos. Quando li o singelo convite, que me chegou pelo zap, levei um susto! Chegamos aos setenta! Não me lembro quando conheci essa turma que se aproxima dos setenta … Numa cidade pequena não existem apresentações formais entre os seus moradores: todos se conhecem e pronto! Mas a convivência com a maioria dos “chegamos aos setenta” começou na adolescência, quando os pelinhos dos bigodes surgem, a voz entra na muda, e as sudoreses hormonais escorrem nos rostos cobertos de espinhas… Tempo dos complexos, das inseguranças, das descobertas e das emoções fortes.
Essa turma do “ chegamos aos setenta” é muito importante na minha vida, juntos aprendemos os ritos da entrada na vida adulta: os primeiros estudos que nos levam à universidade; os comportamentos que os pais diziam serem errados; os mistérios do amor; o charme do cigarro entre os dedos; os porres nos reservados no Bar do Crissaf; os amassos no salão do Montanha Clube, as viagens para os bailes em Apiacá, Bom Jesus, Guaçuí…, viajando amontoados em carros sem cinto de segurança e com motoristas alcoolizados… será que adolescentes tem o corpo fechado?
Com a turma do “chegamos aos setenta” fui estudar na Universidade Federal de Viçosa, enfrentar novos desafios, o desafio de ser transportado do conforto da rebeldia adolescente, controlada pelos pais, para uma nova rebeldia: a de aprender a viver em solidariedade; controlar os impulsos juvenis; conhecer as nuances do amor; aprender uma profissão; entender que a nossa sociedade era, e continua, desigual; que os que ali estavam eram parte de uma casta de privilegiados; e romper as rachaduras de um sistema ditatorial, para encontrar a democracia. Muitos dos “chegamos aos setenta”, não incorporaram a rebeldia de entender que ditadura era um mal a ser vencido, pois eram parte dela. Mas isto é uma outra história!
Chegou a hora dos “chegamos aos setenta” se dispersarem: foram trabalhar, casar, ter filhos, educar os filhos, ter netos, paparicar os netos, e alguns, paparicar bisnetos. Mas cada um, fechado no seu núcleo familiar, percorrendo a sua jornada. Infelizmente alguns não fazem parte dos “chegamos aos setenta”, o tempo, na sua onisciência, resolveu tirá-los do nosso convívio… a nós, só sobrou o lamento e a saudade.
Infelizmente não vou participar da comemoração de setenta anos de um dos nossos, pois tenho um compromisso familiar, vou perder uma grande oportunidade de reviver, ao vivo e em cores, as lembranças deliciosas que o tempo nos traz. Parabéns, meu amigo do “chegamos aos setenta”, que você continue esnobando a sua vitalidade e sendo o avô babão por muitos e muitos anos. Daqui a pouco nos encontramos na turma do “chegamos aos oitenta”.
Oscar Rezende
Vitória, primavera de 2023.
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