No nosso cotidiano acontecem fatos que, muitas vezes, passam despercebidos aos nossos sentidos, mas se olhados com mais atenção, são ótimas fontes para reflexões. Ontem mesmo aconteceu um desses fatos comigo. No sinal, fui abordado por um vendedor de perfume para carros, que, aliás, tinha um cheiro muito enjoativo. Ao respondê-lo que não desejava o produto, ele me surpreendeu com um inusitado pedido:
— Poderia me dizer uma palavra de motivação para que eu possa chegar aonde o sr. chegou?!
— Sorte! — respondi de pronto.
O sinal abriu e o nosso diálogo se encerrou.
Imagino que ele concluiu que eu era um sujeito arrogante e que estava gozando da sua cara, mas não é nada disso, eu acredito na sorte. Explico:
Eu sou um produto da sorte, da sorte de ter nascido em uma família de classe média, que pôde me prover as condições para estudar e construir uma vida tranquila, nos aspectos sociais e econômicos, e olha que foi uma sorte grande! A estatística ensina que a probabilidade de ter nascido em condições de pobreza era imensa, se considerarmos o universo como sendo o Brasil.
Por essa lógica estatística considero o discurso da meritocracia, tão caro aos liberais de plantão, ser uma grande falácia, portanto não atribuo ao mérito a minha trajetória… apenas segui o curso normal: quem nasce pobre, morre pobre, quem nasce na classe média, continua sendo da classe média, e quem nasce rico, morre rico. O contrário disso é a exceção, que existe para validar a regra.
Talvez se eu e o rapaz do sinal tivéssemos um tempo maior para dialogar, eu iria decepcioná-lo, pois diria que não existe nenhuma palavra mágica para fazer com que a vida dele mude para melhor, pois foi a sorte que o deixou nessa situação. As minhas palavras podem soar duras, mas existem atenuantes: a vida não é tão determinística assim, e a aleatoriedade pode torná-lo uma exceção, ou seja a palavra sorte não foi mal empregada, como pode parecer, ainda mais se vier acompanhada do maior sentimento de motivação do homem, a esperança.
Se, por sorte, encontrasse novamente com o rapaz que vende perfume para carros, no sinal, corrigiria a minha resposta anterior por essa: “sorte e esperança”.
A realidade é que somos minúsculos e insignificantes perante o “Todo” … Não devemos atribuirmo-nos uma importância que não temos. Estamos aqui por sorte! Pense nisso!
Oscar Rezende
Vitória, primavera de 2023.
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