Dizem que não devemos nos apegar às coisas materiais! Concordo! No entanto, existem nas coisas, além da sua estrutura física, a estrutura metafisica. O relógio de parede aqui de casa, um carrilhão junghans do início do século XX, comprado pelo meu pai no seu casamento, toda vez que “bate as horas” desperta em mim um monte de sensações que remetem ao passado e trazem recordações da minha infância na Fazenda Velha, o meu cantinho do Céu.
Além das recordações pessoais que a metafisica das coisas disparam na gente, existem as coletivas. Em São José do Calçado, uma pequena cidade do Sul capixaba, uma das coisas responsáveis por essas recordações é o Colégio de Calçado. Aquele prédio cinza e sisudo é muito mais que cimento, tijolos, carteiras, quadra de esportes etc., ele carrega a memória de uma cidade que teve a sua vida cultural ligada a ele.
O colégio de Calçado, hoje Mercês Garcia, desde a sua fundação, na primeira metade do século XX, fomentou a cultura calçadense; era considerado o maior orgulho da cidade. Ali foram gestados os sonhos de muitos calçadenses e cercanias. O ensino no colégio era considerado o melhor da região e atraia jovens das cidades vizinhas que vinham estudar com seus excelentes professores; o seu suntuoso salão nobre foi palco de inúmeros movimentos culturais: bailes, colações de grau, solenidades cívicas, saraus de poesias e peças teatrais que encantavam os calçadenses, lembro-me da Lepra, escrita por Paulinho Garcia e interpretada pelos alunos do colégio… Foi um sucesso estrondoso!
Mesmo com a estadualização, nos anos cinquenta, o colégio continuou sendo referência cultural da cidade por um longo período: me atrevo a dizer, até o final dos anos oitenta e início dos anos noventa. No entanto, com as mudanças na educação brasileira e a modernização da sociedade, o colégio aos poucos foi perdendo a sua majestade no fomento à cultura calçadense, não por responsabilidade dos que ali estavam ou que estão, mas pelo desenvolvimento das tecnologias que avançam, rompendo os limites dos valores de uma velha sociedade e ganhando novos contornos.
Os que hoje são responsáveis por gerirem o destino desta instituição de ensino, e que acompanham os tempos modernos, como deve ser, faço um humilde pedido: entrem pelas enormes portas do colégio, subam ao salão nobre, saiam na sacada e olhem a cidade aos seus pés; respirem fundo, fechem os olhos e sintam a energia ali presente: a soma dos sonhos de várias gerações de calçadenses que carregam na memória as lembranças de um instituição que faz parte de suas vidas.
O Meu sonho é que o Mercês Garcia seja sempre o nosso eterno Colégio de Calçado!
Oscar Rezende
Buenos Aires, verão de 2024
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