
Gosto de fazer um paralelo entre o ciclo da vida e as estações do ano: a primavera, o verão, o outono e o inverno.
Aqueles que conseguiram chegar ao inverno em condições de bem-estar social e econômico e de saúde podem considerar-se os humanos mais sortudos do mundo. Nascer é uma questão de sorte, e de muita sorte. Imaginem quantas são as possibilidades naturais de você não nascer! Se comparado, ainda, com as possibilidades de nascer em condições humanas que permitam caminhar pelas quatro estações da vida, em condições que não sejam a da miséria humana, você ganhou umas mil vezes na loteria da vida. Refletir sobre isso é sempre bom, pois pode ajudar-nos a entender um pouco desse mistério que é viver.
Mesmo assim, muitos de nós ainda se sentem angustiados com a velhice. E é sobre isso que gostaria de falar com vocês, com base em minha experiência: o inverno da mamãe.
Mamãe foi uma pessoa que, desde nova, sempre exercitou o seu intelecto. Quando criança, já gostava de brincar de professora e, na juventude, no início dos anos 1930, se lançou ao mundo, vindo estudar em Vitória, no Colégio do Carmo, um feito muito grande para uma mulher do seu tempo.
Nunca mais parou de se dedicar à atividade intelectual: mesmo criando filhos e cuidando de casa, trabalhava, escrevia, lia muito e nos incentivava à arte da leitura. Essa foi a sua grande razão de viver.
Mas o seu inverno chegou… E chegou de forma muito dura, com a perda do seu grande companheiro, o meu pai. Com o passar do tempo, já não podia ficar sozinha em Calçado, pois a maioria dos filhos estava morando fora, e a sua relação com o caçula era de muita preocupação e angústia, e ela não tinha mais forças para tal tarefa, o que nos obrigou a trazê-la para Vitória e encaminhar o caçula para tratar de sua saúde, de forma a amenizar a situação presente.
Mamãe era uma pessoa que sempre estava de bem com a vida e era incapaz de contrariar um filho, parecia estar se adaptando bem à nova vida em Vitória, mas, lá no fundo de seus olhos, era possível ver um fio de tristeza, o que incomodava muito a todos nós, filhos, pelo amor e admiração que dedicávamos a ela.
Aquele olhar triste foi-se aprofundando e a perda da consciência, de forma lenta e gradual, foi tomando o seu lugar naquela mente tão ativa.
Lembro a primeira manifestação que teve… Estávamos em Manguinhos, minha família e a da Carlota, numa farra só, e ela alegre no meio dos filhos e netos. Numa noite a chamamos para descer até a Vila e assistir ao carnaval. Referi-me a ela por Nadinha, uma forma carinhosa que o seu pai a chamava. A sua reação foi um espanto para todos, brigou comigo e de forma ríspida disse que eu não tinha autorização para brincar com ela dessa forma. Foi um espanto geral: ela nunca havia falado comigo daquele jeito grosseiro, adorava as brincadeiras descontraídas que fazia com ela. Fiquei emburrado com ela por uns dois dias.
Desde aquela primeira manifestação, a sua perda de consciência foi só se agravando. Adorava ler, estava sempre com um livro na mão. Parada ora em uma página, ora com o livro de cabeça para baixo, olhando fixo para as letras, mas a altivez continuava a mesma, não perdia a pose.
No início me senti muito triste vendo aquela situação, mas, após algumas reflexões, comecei a acreditar que aquela poderia ser uma forma bonita de se despedir da vida, pois vamos perdendo a consciência da partida. Talvez seja uma bênção de Deus.
O quadro de deterioração da sua consciência foi muito rápido, não durou mais do que quatro anos. Mudou-se para Bom Jesus, foi viver com a minha irmã Ângela, cuja casa tinha mais conforto para uma pessoa no seu estado.
Foi-se apagando aos poucos. A maneira como se despediu dos filhos, dos parentes e dos amigos foi não os reconhecendo mais, até que, em uma madrugada de novembro, fechou os olhos e foi-se para o infinito.
Esse foi o inverno da vida de minha mãe.
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