Quase encontrei meu pai

O livro Quase Memória, de Carlos Heitor Cony, é um poema de amor ao pai. Numa linguagem melancólica, caracterizada por uma prosa elegante e envolvente, o autor descreve sua relação com o pai e como ela influenciou sua identidade. O livro me fez lembrar do meu pai.

Não sei explicar por quais razões eu e meu pai não tivemos uma relação próxima. Talvez sejam as questões da metafísica, uma reflexão sobre os aspectos mais profundos das interações humanas. Na infância, me lembro de poucos momentos em que sua presença marcou minha vida. Era um pai que pouco conversava e quase não se inteirava do meu mundo infantil, provavelmente, as relações entre pai e filho eram assim naquele tempo. Ao pai cabia a responsabilidade de ser mantenedor da família, e à mãe cuidar dos filhos. Se bem que, lá em casa, as mulheres sempre tiveram uma presença forte. Minha mãe não era dona de casa, e sim uma trabalhadora, que dividia com meu pai as responsabilidades econômicas do lar. Na criação dos filhos, sempre se preocupou muito com a formação intelectual, deixando as questões práticas do dia a dia por conta das pessoas que a auxiliavam na manutenção da casa.

Já na adolescência, a relação com meu pai azedou. Eu não concordava com ele, e ele não concordava comigo. Não que tivéssemos um embate conflituoso, pois eu não era de bater de frente com ele, mas nossas questões eram mais subjetivas. Na concepção dele, tornar-se homem exigia uma retidão e uma maturidade ainda distante de um adolescente daquela época. Me lembro de que, com treze anos, me tornei representante da Ultragás em Calçado, através do meu cunhado, que era o representante geral da empresa na região. Papai, ao invés de me orientar nos negócios, vivia zangado comigo pelos prejuízos que tinha que cobrir, devido à minha desorganização e aos fregueses que não pagavam. Eu não dialogava com ele, mantinha-me submisso às nossas incompreensões. Ele queria que eu fosse um comerciante enérgico, coisa que não combinava com minha personalidade. Detestava aquela função, pois o que eu queria mesmo era viver na vagabundagem da adolescência.

Já na fase adulta, quando fui embora de Calçado para estudar, nossa relação se tornou fria, pois algumas mágoas ficaram me remoendo. Minha impressão era a de que ele não se orgulhava de mim, pois tinha uma relação mais afetiva com as irmãs mais velhas.

Já formado, e dono do meu nariz, como se dizia antigamente, afastei-me um pouco de casa e da convivência com meus pais, pois trabalhava muito. Além de ser servidor público, era sócio de um curso pré-vestibular em Viçosa (MG), o que me obrigava a trabalhar até durante os feriados e grande parte das férias, sobrando pouco tempo para ir a Calçado, duas ou três vezes ao ano, mesmo assim muito rápido. Já nesse tempo, eu e papai começamos a ter uma convivência boa. Sentávamos na varanda e ficávamos conversando sobre nossas vidas, ele me contava casos da juventude e ouvia os meus. Eu já havia deixado para trás a impressão de que ele não tinha orgulho de mim.

Veio dezembro de 1980, fiz 28 anos, meu pai tinha 67. Uma tragédia abalou o mundo, John Lennon foi assassinado. Trabalhei muito naquele fim de ano, o intensivo do pré-vestibular tinha alunos saindo pelo ladrão. Passei o Natal e o Ano-Novo trabalhando, dava mais de 40 aulas por semana, o vestibular na UFV (Universidade Federal de Viçosa) era na primeira quinzena de janeiro. Terminada toda aquela loucura que era o vestibular nessa época, estava exausto. Resolvi passar uns dias em Calçado com meus pais, para renovar as energias e depois viajar para o casamento de um amigo, em Diamantina (MG).

Era domingo, 18 de janeiro. Papai estava de cama, vomitando muito, o médico que foi visitá-lo disse que poderia ser uma infecção estomacal e receitou alguns remédios. Passou a segunda-feira do mesmo jeito, muito debilitado, sem dar sinais de melhora. Na terça-feira, um irmão dele, que era médico em Cachoeiro, mandou que o levássemos para lá, e na quarta de madrugada papai faleceu.

Quase encontrei o meu pai, mas a morte interrompeu uma relação afetiva que começava a nascer.

Oscar Rezende

Vitória, outono de 2025

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