Três homens e um destino

As pequenas cidades do Brasil são o berço da vida, de todas as vidas: pelas suas ruas caminham os doidos, os mendigos, as cartomantes, as benzedeiras, as fofoqueiras, os assassinos, as putas, o padre, o professor, o juiz, o prefeito, o delegado, o médico… e, por aí vai. A nossa pequena São José do Calçado, lá no sul capixaba, não é diferente, essas vidas caminham, em companhia do tempo, pelas suas ruas, ladeiras e praças. Às vezes é preciso se encontrar com algumas dessas almas, para que não fiquem esquecidas. Hoje, a minha conversa é com três personagens de nossa cidade, três heróis com o mesmo destino: o médico, o farmacêutico e o enfermeiro.
Nesse duro período de doença que nos angustia e dos desmandos dos homens diante da tragédia, aqui no Brasil há algo que nos traz esperanças: o SUS, um dos maiores sistemas de saúde do mundo, que com muitas dificuldades vem salvando vidas, mesmo sofrendo os maus-tratos de uma corrente política ideológica que vê na privatização a salvação… dos seus, é claro! Mas nem sempre foi assim, a minha geração há de se lembrar de como era a saúde no Brasil? Era um Deus nos acuda!
Em Calçado, Deus até que nos acudiu! Apoiados nos ombros de três homens: o médico, Dr. Aristides, o farmacêutico, Paulo Medina e o enfermeiro, Sizenando, não fomos abandonados à sorte, principalmente os mais pobres que não tinham recursos para comprar saúde.
O Paulo Medina foi muito mais do que um farmacêutico, era um plantonista de Pronto-Socorro, a sua farmácia era o Pronto-Socorro calçadense: lá chegavam os picados por cobra, os feridos por foice e machado, os com prego no pé, com as pernas inchadas e, principalmente, os com as doenças da pobreza… Ou seja, todas as “desgraças” tinham um destino: a farmácia do seu Cruz, o nome popular que homenageava o seu pai, o velho farmacêutico. O Paulo Medina, com aqueles dons que carregava: o da calma, o da elegância e o da competência, resolvia a maioria dos problemas que recebia. Tinha ainda os atendimentos que ele fazia em domicílio, atendendo os acamados, para aplicar injeções ou fazer algum outro procedimento médico necessário.
Sizenando, um homem de uma meiguice ímpar, com sua voz baixa e pausada, era um gigante, carregava o Hospital São José nas costas. Junto com sua esposa, Lícia, cuidava do hospital e fazia toda a rotina de tratamento, atendendo àqueles que não tinham a menor condição. Os doentes ficavam sempre com uma roupa branca, todos muito bem cuidados, naqueles quartos com cinco ou seis camas. Com poucos recursos médicos e hospitalares, o casal Sizenando cuidava da saúde daquela gente humilde e ainda confortava os moribundos nos momentos finais. Os que tinham condições financeiras na cidade procuravam atendimento hospitalar nas cidades maiores da redondeza, principalmente Itaperuna. Ah! Antes que eu me esqueça! Além de enfermeiro, o Sizenando era motorista de uma Kombi, transformada em ambulância, que buscava os doentes nas roças e levava para o hospital e, quando não havia recursos em Calçado, levava-os, inclusive, para a capital. Muitos da minha geração tiveram o privilégio de conviver com esse homem admirável.
O médico, Dr. Aristides, era quem coordenava todas as ações de saúde em Calçado, foi um dos fundadores do Hospital e, com muita dificuldade e contribuições financeiras da sociedade calçadense, conseguiu manter a Instituição, até que o estado a encampasse. Trabalhou também em um pequeno posto de saúde, onde cuidava das vacinas da criançada e atendia os doentes. Durante muito tempo ele foi o único médico da cidade; cumpriu, à risca, o juramento que fez a Hipócrates; com suas mãos divinas curou doenças e aparou muitas crianças que nasceram na cidade.
Esses três homens trabalharam juntos, por quase cinquenta anos, salvando muitas vidas, trazendo conforto e esperança aos calçadenses. Eles são, sim, nossos heróis! Três homens unidos por um destino: cuidar da vida!

Oscar Rezende

Vitória, outono de 2025

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