— Olha quem já vai ali na rua! Aquele veadinho, filho de D. Iaiá. — exclamou Raimundo, como se pensasse alto.
Uma voz vinda lá do fundo da casa resmungou:
— Deixa de falar da vida alheia, esse menino é um anjo, e você é um ingrato! Se não fosse ele, suas unhas encravadas estariam iguais às de um boi com aftosa.
— É a profissão dele! Só não precisava ser tão afeminado! — resmungou Raimundo.
— Cala essa boca, velho asqueroso! E venha logo comer.
Raimundo levantou-se da cadeira em frente à janela e foi em direção à cozinha, arrastando os chinelos velhos e se escorando em uma bengala.
— Sopa outra vez? Todo dia a mesma coisa! Estou enjoado dessa sopa rala que falta sabor, principalmente carne e sal — reclamou o velho.
— São ordens do Dr. — respondeu, enfastiada, Geralda. — Você não pode comer sal, sua pressão anda muito alta e seu coração está ruim.
— Sopa de fubá com couve e ainda sem sal! Isso é igual a lavagem de porco.
— E o que você é, senão um porco velho! — disse a esposa. — Olha o seu estado! Fica o dia inteiro enfiado nesse pijama encardido e sem botões. Se eu forrar a caminha do Lulu com esse pijama, ele vai rejeitar, tamanha a sujeira! Depois você tira essa imundice porque vou lavá-lo.
— É bem capaz desse seu cachorrinho vira-lata não dormir em cima disso; é fresco igualzinho ao filho de D. Iaiá.
— Você chamou o Tião? — perguntou Geralda. — A chaminé continua entupida e a cozinha está toda enfumaçada; D. Esmeralda esteve aqui ontem, e, do jeito que gosta de uma conversa fiada, vai fofocar com as outras na novena.
— Ainda não falei com ele! O dinheiro da aposentadoria já acabou — respondeu Raimundo, com a sopa escorrendo pela camisa do pijama.
— Como assim! Ainda estamos no dia quinze, e o dinheiro já acabou? O que você está fazendo com ele? Jogando no bicho outra vez?
— Pergunta lá para o seu presidente, aquele ditadorzinho de merda, por que a minha aposentadoria não vale nada? Você não gosta tanto dele!
— Ah! Outra coisa! — alertou Geralda. — O Adélbio disse que se você não acertar a caderneta do mês passado, ele não vai mais vender fiado.
— Não tem problema, você compra fiado na venda do Delorme — respondeu Raimundo. — No final do mês eu pago o Adélbio, aí ele volta a vender fiado. No outro mês eu pago o Delorme, e assim vamos vivendo… Não se preocupe, não vamos passar fome!
— É só o que falta! — respondeu indignada Geralda.
— Chegou alguma carta dele? — perguntou Raimundo, coçando uma mancha escura no braço.
— Não! A última carta que ele me escreveu foi há dois anos, quando se formou.
— Por que você não me disse que ele havia se formado?
— Para quê? Você nunca se interessou por ele!
— Ele se formou em quê?
— Psicologia!
— O que faz essa profissão?
— Ajeita a cabeça das pessoas.
— Ah! Deve ser por isso que ele escolheu esse curso.
— Você é um velho mau, sem sentimentos; parece criação do diabo! — respondeu Geralda, com os olhos carregados de ódio.
— Irra! Desde que esse menino foi embora, você não para de atormentar minhas ideias.
— Você sabe muito bem por que ele foi embora!
— Mas é claro! — respondeu Raimundo, com um sorriso cínico. — Ele vivia enfiado no quarto o dia inteiro, lendo e escrevendo bobagens… nem namorar ele namorava! Quando saía, era para assistir filmes de amor no Cine São José. Nem para trabalhar prestava! Você lembra o que aconteceu quando arranjei um serviço de caixeiro para ele na venda do Adélbio? Errou as contas da caderneta e me deixou no prejuízo. Era um imprestável, foi embora para não ter que trabalhar! Seu filho não valia o que comia!
— Nosso filho!
— Mas ele não puxou nada de mim! É fraco e afeminado — disse Raimundo. — Quando lhe dei umas boas surras, para ver se endireitava, o que ele fez? Enfiou o rabo entre as pernas e foi-se embora para o Rio de Janeiro. E você ficou cinco anos sem falar comigo! De que adiantou? Ele também te esqueceu!
— Ele fez muito bem em ir embora desta terra de gente maldosa, que não soube reconhecer o valor de um homem educado, com gosto refinado para a leitura e a escrita — disse Geralda, demonstrando orgulho pelo filho. — Nesta terra, os homens são brutos, só sabem pisar em bosta de vaca, peneirar café e segurar cabo de enxada.
— Eu não sou esse tipo de homem! — argumentou Raimundo.
— É pior! Nem cabo de enxada você sabe segurar! — resmungou Geralda. — Você não fez outra coisa na vida além de varrer chão, fazer café e puxar o saco do chefe na coletoria.
— Mas foi com esse emprego que comprei esta casa e dei estudo para o vadio, aquele psicólogo! É assim mesmo que fala?
— Seu emprego? Se não fosse eu lavar as cuecas riscadas de merda e toalhinhas sujas de sangue batido dos ricos desta cidade, e ainda tendo que escutar insultos, ele não teria estudado nem dado um rumo na vida.
— Vou para a minha cadeira na sala! É melhor falar sozinho e ver as pessoas passando na rua do que escutar essa conversa desagradável — resmungou o velho.
A atmosfera naquela casa cheirava a fel… Eram duas almas tentando sobreviver ao ódio cultivado por mais de quarenta anos. Ele, um homem sem ambições, que trabalhou trinta anos como zelador na coletoria estadual e acumulou inúmeras frustrações na vida: o casamento sem amor, forçado pelas circunstâncias, engravidou Geralda em uma festa do Rosário em Bom Jardim; o filho que só lhe trouxe desgostos; e não cultivou amizades, só conviveu superficialmente com alguns.
Agora, que estava velho e solitário, recebeu de herança as doenças da velhice: diabetes, pressão alta, gastrite e uma angústia que lhe sufocava o peito. Não gosta de conversar com ninguém e considera o seu passado dispensável de recordações, não tem nada importante para contar sobre ele; passa o dia derramando o seu fel e escutando o rádio, sentado em frente à janela, assistindo às pessoas caminharem pela rua. Assim que termina a Ave Maria, desliga o rádio, faz uma refeição e segue para a cama. Todo dia aposta no bicho. Não sonha em ganhar dinheiro, joga por hábito.
Geralda vive em uma melancolia profunda, acumula desgostos e vive lamentando-se, em voz alta, pelos cantos da casa. Faz as tarefas domésticas por obrigação e não tem prazer em enfeitar a casa. O que a incomoda é a chaminé entupida, que enfumaça a cozinha e piora sua asma. Ela foi criada na roça, só estudou até o terceiro ano primário… Mesmo com pouca leitura, gostava de folhear as revistas que vinham da capital e sonhar com a vida na cidade grande. Aos dezessete anos, tropeçou em seus sonhos e engravidou de Raimundo. Uma fraqueza por não controlar os desejos do corpo em formação
Casou-se obrigada pelo pai, nunca foi feliz! Apenas algumas alegrias momentâneas com a chegada do filho. Todavia, o relacionamento difícil dele com o pai e a incompreensão da cidade com seu jeito obrigaram-no a ir embora (“para não enlouquecer”, como dizia) e nunca mais voltou.
A indiferença do filho e o ódio ao marido transformaram a vida de Geralda num deserto de sentimentos
Durante a Ave Maria, o garoto trouxe o resultado do jogo do bicho. Raimundo pegou o papel e, sem nenhum interesse, enfiou-o no bolso, desligou o rádio e foi para a cozinha… Pegou o prato que a mulher havia deixado no canto do fogão, sentou-se à mesa, comeu sem gosto e seguiu direto para o quarto.
Geralda fez o sinal da cruz mecanicamente. No íntimo, não acreditava em Deus; só não confessava para não ter de se justificar diante da rigidez religiosa das colegas de oração. Durante as rezas, mantinha o pensamento vazio, repetindo as orações sem verdadeira devoção. Naquele dia, demorou um pouco mais nas preces. Passava das dezenove horas quando saiu da igreja. Deixou o véu escorrer da cabeça para os ombros e saiu caminhando pelas ruas vazias da cidade. Ao entrar em casa, viu que a luz do quarto do marido estava acesa. Caminhou até o quarto sem fazer barulho; não queria acordar Raimundo. Ao esticar a mão atrás da porta para desligar o interruptor, viu que o marido não estava na cama. Olhou para o chão e lá estavam as pernas dele, ao pé da cama. Ao se aproximar, deparou-se com o marido morto: ele estava com os olhos esbugalhados, com uma expressão no rosto nunca vista por ela em todos os anos que viveram juntos. Os braços abertos e as pernas esticadas davam a impressão de um crucificado, só que, no lugar dos pregos, nas mãos havia dois pedaços de papel.
Geralda pegou os papéis, cada um contendo uma sequência de números. Ao compará-los, percebeu que eram iguais… Havia dado porco na cabeça.
Oscar Rezende
Vitória, outono de 2025
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