Não sei como foi com vocês, mas comigo deu tudo errado. Não sou nada do que queria ser quando crescesse.
O meu primeiro sonho profissional, lá pelos oito anos, foi ser campeiro e carreiro. Admirava o Jaime, que foi criado pelo meu pai e trabalhou com ele na fazenda. Manuseava o úbere da vaca com uma mão firme de fazer gosto; o leite jorrava como se fosse uma torneira esguichando água. Olhava para aquela cena e pensava comigo: é isso que eu quero ser. Tinha a maior admiração pela sua força física e valentia no trato com o gado e não havia uma vaca brava que lhe metesse medo.
Também quis ser carreiro e acompanhei o Jaime em várias viagens puxando café lá do alto da Sapucaia, na divisa com Bom Jesus do Norte. O carro, lotado de café, descia o morro engatado a cinco juntas de boi, uma no cabeçalho e o resto ajudando o freio de madeira, que soltava uma fumaceira danada ao segurar as rodas.
E eu, ao lado do Jaime, que, empunhando seu “garruchão” (era assim que eu chamava aquela vara com uma ponta de metal usada pelo carreiro), dominava os bois para uma descida segura. Como vocês já perceberam, não deu certo, não sou nem campeiro, nem carreiro.
Motorista de Fenemê! Que menino de roça, ao ver aqueles caminhões enormes encostados na tulha, lá na Fazenda Velha, para carregar café, não sonhava em ser motorista de Fenemê? Eu ficava admirado com aqueles caminhões que tinham uma cara zangada e com as três letras “FNM” escritas em diagonal no seu nariz. Havia um motorista, de quem não me lembro o nome, que muito me incentivou na profissão. Quando ele aparecia na Fazenda para carregar café, colocava-me na boleia do caminhão e deixava que eu ficasse sentado, mexendo no volante e imitando o barulho do caminhão com a boca. Era o meu sonho ser motorista de Fenemê! Infelizmente, outra frustração… não deu certo.
Já estava mais crescidinho, devia ter uns 12 anos, quando começaram a asfaltar a estrada Calçado–Bom Jesus do Norte. Quando via aquelas máquinas, principalmente a patrol, cortando os barrancos para construir o leito da estrada, ficava admirado com a habilidade dos maquinistas. O canteiro de obras da empresa Semoveterra ficava lá na Usina São José, quase em frente à nossa casa, na Fazenda Velha. Sempre que tinha uma oportunidade, convencia alguém lá de casa a preparar um lanche para os maquinistas. Eles, em agradecimento, me deixavam subir naquelas máquinas imensas. Admirava a profissão de maquinista. Mas, pela terceira vez, não deu certo: não me tornei maquinista.
Agora vai! Já sou adulto e posso ter um sonho mais real sobre uma profissão… Sempre fui apaixonado por futebol. Escutava as transmissões esportivas na Rádio Globo, acompanhando com muita atenção dois repórteres de campo dos quais gostava muito: Cléber Leite (flamenguista) e Loureiro Neto (vascaíno). Achei que poderia ser uma ótima profissão: ganhava dinheiro e, ainda por cima, podia fazer o que eu mais gostava: acompanhar os jogos de futebol, e ainda à beira do campo. Achava a melhor profissão do mundo. Mas não deu certo: não virei repórter esportivo.
Até que um dia, sem mais nem menos, virei professor. Em 2018, aposentei-me com 43 anos de profissão e senti-me realizado profissionalmente. Nunca sonhei em ser professor quando crescesse, mas o destino é assim… Ele é quem escolhe os caminhos que vamos trilhar.
Oscar Rezende
Vitória, outono de 2025
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