Minha mãe sempre foi cuidadosa no uso da língua portuguesa—em público, nunca pronunciava palavras chulas. Mas, dentro de casa, se soltava.
Na infância, lá na Fazenda Velha, eu era “meio” medroso (para não dizer medroso por inteiro). Morria de medo de assombração e sofria bullying constante das minhas irmãs. Imaginem o que é conviver com cinco mulheres pegando no seu pé o tempo todo. Quando as provocações se tornavam insuportáveis, eu corria para mamãe em busca de consolo, e ela, sem rodeios, dizia: “Não ligue para elas, meu filho, pois quem tem cu tem medo.”
E, para mim, essa sempre foi uma verdade absoluta. O medo habita a mente de todo ser humano.
Ele se manifesta em duas dimensões. A mais visível é aquela que nos controla, que nos impede de agir por impulso, nos fazendo respeitar regras e leis—um medo que, de certo modo, nos obriga a viver em harmonia social. A outra, mais cruel, é a que transforma a mente na morada da imaginação (ou do diabo, como alguns preferem dizer). Essa é capaz de nos arrastar para estados de angústia e depressão, tornando a vida um peso quase insuportável.
O medo da morte, por exemplo, ou o pavor que consome os pais quando seus filhos adolescentes começam a se desgarrar de casa—quase sempre de maneira atabalhoada—e os deixam reféns de uma enxurrada de preocupações. Medos cruéis, angustiantes. Muitos já os experimentaram.
Mas, além do temor pela vida ou pela morte dos filhos, o medo ganhou um aliado poderoso: as redes sociais. Elas transformaram o mundo em uma aldeia global, onde todos se comunicam e compartilham suas vidas em tempo real. Nossos dados viajam livres pelos satélites, nos tornando vulneráveis, presas fáceis para esse novo terror digital.
Nenhuma mente humana é capaz de resistir à força dos algoritmos. Eles invadem nosso espaço familiar, coletam informações, criam ficções que desestabilizam nossa saúde emocional e intensificam nossos medos. Nos transformam em meros joguetes psicológicos à mercê do consumo, das fake news e, pior, das quadrilhas cibernéticas.
Não sei qual será o futuro da humanidade nessa realidade virtual. Mas, quando vejo o presente—onde o ódio e a manipulação dos algoritmos ocupam os espaços que deveriam ser preenchidos pela solidariedade, pela amizade e pelo amor—sinto medo do que está por vir.
E assim caminha a humanidade…
Oscar Rezende
Vitória, verão de 2021
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