Gosto de enxergar o número cem como algo mágico, especialmente quando está ligado à passagem do tempo. Em comparação com a imensidão temporal do universo—seja pela ótica da fé ou da ciência—esse número parece insignificante. Mas, quando contado como o tempo de uma vida, ele se torna um marco extraordinário, ainda mais quando associado à fé, transformando-se numa verdadeira dádiva divina. E foi essa dádiva que a querida Maria José Medina da Fonseca recebeu.
Neste centenário de Dona Maria José, falar sobre ela é também revisitar parte da minha própria história. Desde que me entendo por gente, convivo com ela e com seu amado Afrânio, que, segundo Maria José, está ao lado de Deus no céu. Já escrevi sobre ele há algum tempo, mas hoje me dedico inteiramente a ela.
Dona Maria José nunca foi minha professora—um privilégio que não tive—mas fui agraciado com outro presente que muitos de seus alunos não experimentaram: a amizade. Conviver com alguém que sempre me tratou com um carinho imenso, que talvez eu nem mereça, é um tesouro. Ao longo da minha vida, recebi inúmeros conselhos dela; alguns carrego na alma, enquanto outros deixei passar, pois fazem parte da minha identidade como indivíduo. Especialmente aqueles ligados à sua fé admirável, cuja magia, infelizmente, não tocou minha alma.
Talvez haja nesta vida terrena alguém que tenha tanta fé quanto Maria José, mas ninguém é capaz de superá-la. Ela acredita, sem hesitação, em tudo que está na Bíblia: Adão e Eva, o paraíso, Deus, os Santos, Jesus Cristo… até naquele outro cujo nome não se pronuncia, sem carregar uma única dúvida em sua alma. Viver assim é um privilégio raro, uma dádiva divina que torna o caminhar pelo tempo mais leve, sem angústias. Poucos têm esse presente, mas Maria José certamente é uma dessas almas iluminadas.
Ao longo de sua extensa caminhada, compartilho momentos preciosos ao seu lado. Suas recordações, e as de sua família, são parte do meu coração, pois me acolheram com um carinho sem igual. Como esquecer a melhor carne de porco do mundo, preparada com maestria por Maria José? Mas que, para Afrânio, nunca mereceu uma nota cem, pois ele sempre deixava um espaço para a próxima ser ainda melhor—afinal, dar cem significaria não haver mais nada a superar.
Na minha adolescência, Maria José nunca foi complacente com o que julgava errado, segundo suas convicções. Mas suas mãos, que advertiam, também eram compreensivas e afetuosas. Sempre que vou a Calçado e não passo em sua casa, nem que seja para um breve café, sinto um vazio na alma. E, claro, se ela souber que estive lá sem visitá-la, na próxima vez certamente serei cobrado!
Neste centenário de Maria José, quero celebrar não só com meu corpo—para aproveitar a alegria e a companhia dos amigos—mas, principalmente, com minha alma, em reverência a uma pessoa que caminha ao meu lado nesta jornada da vida. Admirador de sua grandeza e de sua fé inabalável, aproveito cada encontro para absorver um pouco da leveza que sua alma traz à minha.
Vida longa, querida Maria José! Seu caminho ainda reserva muito a compartilhar neste mundo. Muitos beijos e abraços.
Oscar Rezende
Buenos Aires, outono de 2025
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