A invenção do Diabo

Quando fui apresentado às duas entidades que dominam as mentes humanas—Deus e o Diabo—eu ainda era uma criança. Crescia na roça, sem compreensão do mundo, e o sobrenatural entrou em minha mente inocente como uma verdade absoluta. Aprendi com a família e o catecismo que ambos eram mensageiros do medo—e minha cabeça infantil foi povoada por ele.

Deus, com longos cabelos e barba brancos como a neve, estava pintado no teto da igreja, sentado sobre uma nuvem, apontando o dedo em minha direção. Seu gesto parecia uma acusação: todos os pecados, dos mais simples aos mortais, recaíam sobre mim. Tinha medo de olhar para Deus, pois me disseram que Ele sabia tudo o que pensávamos e via tudo o que fazíamos—minha vida estava sob seu domínio. Que coisa assustadora!

Mas o Diabo era ainda pior. Nas gravuras da igreja, sua imagem era a de um homem com traços grotescos, lembrando um bode, com chifres e um corpo peludo. Na mão, segurava o terrível tridente, símbolo do castigo. Diferente de Deus, não se sentava nas nuvens, mas sim sobre as chamas. O medo que eu sentia por ele era muito maior que o de Deus—transformava-se em verdadeiro pavor.

O tempo passou, e essas entidades que antes simbolizavam o medo foram banalizadas em minha mente, reduzidas a meros personagens religiosos. O Diabo, no entanto, continua sendo o protagonista dessa encenação da vida, imposta por religiões e ideologias para dominar as mentes humanas. E, por mais absurdo que pareça, o homem age como seu representante na Terra.

A realidade está cheia de exemplos dessa manifestação do mal: governos exterminam inocentes, nações se digladiam em nome de poder e ideologias, e grupos armados perpetuam ciclos de violência. O homem, desde que se tornou um ser racional e passou a dominar o planeta, criou o Diabo—sua maior invenção. Deus? Apenas um efeito colateral, uma tentativa de consolo para os desamparados neste mundo impiedoso.

O Diabo também tem suas sutilezas—aliás, essa é sua maior “virtude.” Ele cria as necessidades que aprisionam a mente humana e, depois, vende as soluções. Em um podcast que assisti, Drauzio Varela definiu o celular como uma invenção do Diabo. Concordo, mas vou além: toda essa tecnologia à qual hoje somos submetidos é obra sua. Parece nos prometer o paraíso, a felicidade eterna, mas, ao observar o rumo que as coisas tomam, percebemos que estamos cada vez mais próximos do inferno.

E o pior de tudo? Deus, que se orgulha de ter criado o homem e o universo, parece indiferente. Lavou as mãos e entregou tudo ao Diabo.

Oscar Rezende

Vitória, outono de 2025

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