A ORDEM de domingo

A velocidade com que a informação trafega hoje — pelas redes de fibra ótica, ondas de rádio ou satélites — transformou os jornais impressos em peças obsoletas. As notícias que carregam já chegam vencidas: são os relatos de ontem. E o ontem, sob o jugo dessa entidade impiedosa chamada tempo, já se tornou um passado remoto.

Aqueles que nasceram no mundo digital, sob o domínio da internet, não se informam mais por jornais impressos — e, em pouco tempo, também não o farão pela televisão. Já a minha geração, que aprendeu a decifrar o mundo através daquelas largas folhas de papel que nos bloqueavam a visão lateral, sente falta dos jornais. Abríamos o jornal e, por meio de manchetes, notícias, crônicas, cadernos culturais e colunas sociais, nos apropriávamos do mundo.

O ritual de sentar-se aos domingos pela manhã, abrir o jornal e viajar pelo Brasil e pelo mundo permanece como uma lembrança nostálgica. Hoje, no Brasil, poucos jornais impressos ainda circulam — e mesmo estes são magros de folhas, rarefeitos de conteúdo. Daqui a poucos anos, talvez não passem de peças de museu.

Em São José do Calçado, pequena cidade ao sul do Espírito Santo, circulou até há alguns anos um dos jornais mais antigos do Estado: A ORDEM. Era distribuído gratuitamente aos domingos, logo após a missa. Sentados nas varandas, nos bares ou nos bancos da praça, os calçadenses liam com atenção o que estava impresso ali.

A ORDEM foi importante para Calçado. Apesar de ser um jornal oficial da prefeitura — o que limitava sua liberdade crítica —, oferecia aos moradores uma ampla gama de informações: prestação de contas do município, editais de casamento, crônicas de escritores locais, comentários sobre o futebol da semana, programação do Cine São José, aniversários e registros sociais das festas e bailes no Montanha Clube. Por muitos anos, aquele jornal ajudou a construir a identidade calçadense. Havia quem esperasse ansiosamente pela sua chegada, na esperança de ver seu nome citado em alguma nota da semana.

Na adolescência, eu era um leitor fiel do jornal A ORDEM. Adorava acompanhar as notícias do futebol, do cinema, as crônicas… Mas o que mais me fascinava era o horóscopo — eu procurava, ali, alguma esperança de encontro com minha paixão. As previsões nunca se concretizaram, e a paixão virou sombra. A vida adulta tratou de seguir o seu curso.

Às vezes, me flagro rondando o passado, farejando na memória as emoções de outrora — enquanto o tempo, essa entidade austera e sem pressa, nos impõe a sua realidade e nos empurra lentamente em direção à nossa verdade suprema.

Oscar Rezende

Vitória, inverno de 2025

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