João Batista

Era um sábado, na madrugada gelada de junho. A cerração era espessa, e da janela do meu quarto, no alojamento da UFV, mal se enxergavam as manchas de luz que vinham do centro de convivência do Diretório Central dos Estudantes (DCE).

Deitado, deixava-me embalar por João Batista, que sussurrava aos meus ouvidos a delicada e envolvente “Love”, na voz inconfundível de Nat King Cole — melodia que acariciava um coração ferido por um amor não correspondido.

João Batista era um rádio de três faixas, comprado por minha irmã Dodora, nas Lojas Helal, em Vitória, com o primeiro salário como professora. Ganhou esse nome em homenagem a um primo falante. Com o tempo, Dodora perdeu o encanto por ele e o deixou comigo. Foi meu fiel companheiro por mais de uma década.

Com sua voz, visitei os estádios do Brasil — especialmente o Maracanã e São Januário — nos épicos relatos de Waldir Amaral e Jorge Cury, vibrando com os gols dos meus ídolos vascaínos, sobretudo o inesquecível Roberto Dinamite.

Nas ondas da Difusora de Cariacica, da Jornal do Brasil e da Mundial, escutei as mais belas canções do Brasil e do mundo. E foi na voz elegante de Eliakim Araújo, da rádio JB, que acompanhei os grandes eventos do planeta: a Revolução dos Cravos, a morte de Franco e o retorno da monarquia na Espanha, a renúncia de Nixon,  a morte  de Mao Tsé-Tung e as tensões da Guerra Fria entre EUA e URSS. Ouvi também, no silêncio cúmplice das emissoras, o que se ocultava sobre as atrocidades da ditadura militar no Brasil.

Uma das notícias mais impactantes que João Batista me trouxe aconteceu enquanto eu me preparava para o vestibular em Viçosa. Durante a final do Campeonato Mineiro, entre Atlético e América, a transmissão foi subitamente interrompida:

— O Palácio de La Moneda, no Chile, foi atacado por militares sob o comando do general Augusto Pinochet. O presidente Salvador Allende morreu durante o bombardeio.

Aquele anúncio marcou o início de uma das mais brutais ditaduras da América Latina, que logo traria ecos sombrios ao Brasil, via Operação Condor.

Mas voltemos à música. Quando a vibe era um bom rock, a pedida era a Rádio Mundial AM 860, com o programa Ritmos de Boate à meia-noite, comandado pelo inesquecível Big Boy. Lembram?

Havia também a Rádio Difusora de Cariacica, uma das mais populares em Vitória. Sua programação musical ia das 6h à meia-noite. E ao meio-dia, um clássico: o programa Músicas para o seu almoço, só com instrumentais — inesquecível.

Com o passar dos anos, João Batista foi envelhecendo. Primeiro, um leve tapa era suficiente para ressuscitá-lo. Depois, nem sacolejos resolviam. Até que um dia… silenciou de vez.

Tentei substituí-lo por um moderno aparelho de seis faixas, que sintonizava até rádios da China — mas não era a mesma coisa. João Batista permanece vivo nas minhas memórias, guardião das emoções mais profundas dos meus tempos de UFV. Acalentou minhas madrugadas solitárias, vibrou comigo nos dias de alma ensolarada. Eterno João Batista!

Oscar Rezende

Vitória, inverno de 2025

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