O brilho da Infância

Uma notícia escureceu a minha infância: os vagalumes estão em extinção. Vi isso no Jornal Nacional, uma reportagem que  parecia ter sido feita para mim.

A expansão dos centros urbanos e o desmatamento têm apagado, pouco a pouco, a luz desses pequenos faróis da noite. Mesmo sem dados científicos, eu já sabia. Empiricamente, como costumam dizer. Nas viagens noturnas por estradas sem iluminação, onde antes eles dançavam no ar, agora reina a escuridão.

Criança, na Fazenda Velha, nas noites escuras, quando a lua resolvia passear lá para os lados do Japão, quem iluminava o meu caminho eram os vagalumes. Como eu amava os vagalumes! Eles enfeitavam o breu à minha frente com pontos de luz que acendiam e apagavam em intervalos curtos, e um sorriso vinha aos meus lábios. Não sei por quê, mas era assim: bastava vê-los para que um leve contentamento tomasse conta da minha alma. Seus brilhos amenizavam o medo das assombrações que habitavam minhas noites na roça.

Após o jantar, quando o sol se punha atrás da Usina São José e a lua começava sua caminhada pelo céu, iluminando a copa das árvores da mata que ficava em frente à fazenda, pelo menos duas vezes por semana minha família saía caminhando pela vizinhança para fazer visitas — principalmente ao meu tio Zezé, irmão de minha avó, e à tia Mulatinha, sua esposa. Eles eram idosos e moravam sozinhos numa fazenda perto da nossa. Papai e mamãe sempre iam visitá-los. Eu adorava. Tia Mulatinha fazia biscoitos deliciosos, e eu, guloso como sempre, me deliciava com as iguarias.

Saíamos caminhando no finalzinho da tarde e retornávamos já à noite. Quando estava muito escuro, o bailar dos vagalumes à nossa frente era uma cena inesquecível. A criançada corria na frente dos adultos, misturando-se àquela chuva de brilhos, levantando as mãos aleatoriamente em direção ao céu, na tentativa de que um deles, num voo atabalhoado, caísse em nossas mãos. Não sei se por nossa ação ou da natureza, mas não era incomum que alguns deles caíssem no chão. Era uma disputa acirrada para ver quem pegava primeiro o pobre bichinho.

Confesso que não gostava muito dos que tinham luz na bundinha — eram moles como borboletas, e logo perdiam o brilho. Meus preferidos eram os de corpo mais duro, com dois olhos que iluminavam como faróis. Eu gostava de apertar o dedo, com cuidado, entre o seu corpo e sua cabeça, para que desse um estalinho e pulasse no ar, ou levá-lo para um canto escuro e acompanhar sua caminhada, imaginando um carro com farol aceso cruzando a noite rumo às minhas fantasias infantis. Até o barulho do motor eu fazia com a boca.

Os vagalumes foram amigos que povoaram meu mundo de imaginação. Não vê-los mais transforma minha realidade em algo um pouco mais árido. Como se a infância tivesse perdido um de seus últimos lampejos.

Só me resta um adeus aos meus velhos amigos, carregado de muita saudade.

Oscar Rezende

Vitória, inverno de 2025

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