Enquanto o outono não chega…

Uma ode melancólica ao tempo, à memória e à estação que veste a alma.

Enquanto o outono não chega, é verão. É a revolução da natureza que renova a vida que precisa brotar novamente.  É o prazer daqueles que têm recursos para mitigar os danos que ele provoca: o sol escaldante, o calor para todos os lados, e as chuvas torrenciais e ventos fortes, que trazem sofrimentos — principalmente aos que são obrigados a viver às margens (em dois sentidos: dos rios e da sociedade).

Não gosto do verão. Logo no início, em dezembro, eu saio do prumo. Minha alma seca, se escorando numa angústia entranhada que só se dissipa aos primeiros sinais do outono.  Dezembro é também o meu aniversário, que não gosto, pois sinto as marcas do tempo com mais intensidade.

Sou mais reflexivo do que da ação — e não é de agora, mas desde sempre. Não combino com o verão. Ainda mais agora, que sou graduado pelo tempo.  Não preciso mais fingir que gosto de sol, que gosto de praia e carnaval — posso ser rabugento sem precisar me esconder atrás da mocidade.

Quando jovem, se não entrasse no clima de verão, me sentia um alijado. Fazia um esforço danado para não perder o bonde, ainda mais nos verões da adolescência em São José do Calçado. Como eram tediosos!

Calçado passava por sua madorna de verão. O calor intenso esvaziava a cidade.
O sol escaldante esquentava os paralelepípedos que calçavam as ladeiras, refletindo ondas de calor visíveis a olho nu. Até os cachorros vadios desapareciam durante as horas mais quentes do dia, só retornando ao entardecer.

Os moradores mais abastados fugiam para as praias, e os que não podiam se refrescavam em banhos de rio ou à sombra das árvores. À noite, ainda suportavam os ataques dos terríveis pernilongos. Em janeiro, não havia vida social na cidade: nenhuma data comemorativa ou baile no Montanha Clube. Só mesmo quando chegava o Carnaval a cidade voltava a se animar.

O verão me causa um bloqueio criativo. Quase não consigo escrever — parece que a imaginação também se esconde do sol. Não me resta alternativa a não ser esperar o outono chegar.

O outono é outra história. O abraço do sol aquece a alma. Não aperta. Não sufoca. Não tortura. O mundo fica mais em silêncio. As nuvens escuras vão lá para o hemisfério norte, provocar a renovação da vida — e alguns sofrimentos.

Amo o outono. A natureza toca para mim um blues (a trilha sonora da minha vida) que me leva numa viagem para os cantos agradáveis da minha alma. É um fascínio que não se explica — é só sentir.  A leitura flui com mais intensidade, a escrita vem com mais naturalidade, as conversas ficam mais agradáveis, e as reflexões melancólicas da vida não trazem tristeza.

Me sinto mais belo no outono.  É o tempo me levando…

Oscar Rezende

Vitória, no inverno de 2025.

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