Era meio de semana. Eu estava sozinho em Buenos Aires, Guarapari, onde tenho uma casa. Estava lá para acompanhar o trabalho de um pedreiro. Fui deitar cedo — tive um dia atribulado e estava cansado.
De madrugada, escuto um barulho. Assustado, levo um tempo para entender que era o telefone que tocava. Atendo. Do outro lado da linha, escuto a voz do meu cunhado:
— Oscar, Dasdores tá passando muito mal. Cheguei agora aqui no hospital com ela. Eles levaram ela lá pra dentro… Espera aí, o médico vem vindo.
Silêncio, silêncio, silêncio…
— Oscar, Dasdores morreu! — era meu cunhado de volta, com a voz assustada.
A notícia entrou pelos meus ouvidos, desceu para o meu coração e seguiu se espalhando por cada uma das minhas células. Meus músculos ficaram paralisados por segundos. Minhas cordas vocais tentam, sem sucesso, emitir algum som — mas só saem grunhidos baixos e confusos. Levo um tempo até me estabilizar. Desorientados, eu e meu cunhado conversamos mais um pouco sobre as providências e desligamos o celular.
Me jogo na cama de barriga para cima (estava sentado na beirada) e fico ali por um tempo, olhando para a escuridão. Aos poucos, vou tomando consciência do que devo fazer. Um bacurau grita na noite, lá fora. Nunca gostei do grito do bacurau — parece mau agouro. E foi.
Acendo a luz e, como um zumbi, vou fazendo as coisas. Pego o telefone e ligo para minha irmã Carlota. Quando lhe dou a notícia, ela só consegue dizer uma única palavra, que sai desconectada, demonstrando o choque que sofreu:
— Ah! Tá!
Em seguida, ligo para as outras irmãs e para o irmão, anunciando que a morte veio visitar, mais uma vez, a nossa família. Agora era a irmã querida que partia.
Quando pego o celular para mandar uma mensagem para o grupo da família, qual é a minha surpresa: havia duas mensagens da minha irmã Dodora — uma falando do prefácio do meu livro Nas Curvas do Tempo, que ela havia acabado de enviar, e a outra de uma pandega sobre o Peido, um dos personagens que mais atuaram nas peças de humor, suas maiores obras da vida.
Viajamos para São José do Calçado para nos despedirmos da nossa amada irmã. Ao final dos ritos, fomos para a nossa velha casa, na Rua 15, em Calçado — o nosso altar, onde nos encontramos com o nosso passado e fazemos as orações que mantêm a família unida pela história que meus pais começaram a construir, pelas bases que lançaram, e que as gerações seguintes continuam edificando.
Este texto melancólico se deve ao sonho que tive ontem com a minha querida irmã Dodora, que, com seu sorriso cativante e voz alegre, veio conversar comigo sobre a morte — parte da nossa vida.
Oscar Rezende
Vitória, solstício de primavera de 2025
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