O Natal

Mais um ano se vai, e vou deixando para trás o rastro da minha vida, uma existência que não tem importância perante a grandeza do universo que nos cerca, e quase nenhuma na bolha em que vivo. Cada um está no mundo a partir do ninho em que nasceu, cresceu e nunca abandonou. É a vida. Assim construímos nossas verdades e, infelizmente, também nossas mentiras, que nesses tempos estranhos viraram moda.

E o Natal chegou. Eu, desde menino, não consigo gostar desta festa. Sou possuído por uma melancolia que começa a penetrar pelos meus poros no início de dezembro e só me abandona depois do Ano Novo. Passo dezembro inteiro num estado melancólico. Talvez devesse fazer análise para tentar encontrar o gatilho que me deixa assim, que me tornou avesso à data. Aliás, nunca fiz análise. Não que eu tenha um muro de contenção para os meus problemas; muito pelo contrário, sou um fraco que tem medo de escarafunchar o próprio interior e encontrar lá um monte de incertezas que me desmascarem.

Mas voltemos ao Natal. Ontem, conversando com um dos meus filhos que trabalha na Vale, ele se justificava por não passar a noite de Natal com a família, em Buenos Aires (Guarapari, ES) — iria trabalhar nos dias 24 e 25 de dezembro. Senti que ele estava um pouco chateado, mas, como sempre, eu, um conselheiro que puxa tanto para a própria realidade que às vezes esquece da realidade do outro, o aconselhava a não se preocupar com a data. Afinal, é apenas uma convenção das religiões (não sigo nenhuma) que tentam incutir na alma da gente a confraternização de um só dia — o que soa tão falso quanto uma nota de três reais — sendo que no resto do ano vira fumaça.

Não sei se o meu conselho ajudou, mas me fez lembrar de um período da minha juventude em que, no Natal, não sentia melancolia. Eu e alguns colegas éramos donos de um cursinho pré-vestibular em Viçosa, MG. Em dezembro havia o famoso “intensivão”, em que dávamos aula nos três turnos, durante todo o mês — só parávamos no dia 25. Na noite do dia 24 eu chegava tão cansado que caía na cama e só acordava no dia seguinte, sem me importar com a noite de Natal.

Mais uma vez estou aqui, enfrentando o meu septuagésimo segundo Natal. Ainda bem.

Oscar Rezende

Vitória, dezembro de 2026

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