Sou um homem do século passado; estou no século XXI por imposição do tempo. Olho o mundo com os olhos do passado, mas vejo que sou minoria. Acredito em palavras gastas: justiça social, políticas públicas, universidades públicas, o bem coletivo, uma esquerda democrática e uma direita democrática — que só se diferencia da esquerda por uma visão mais liberal, na qual o Estado tem apenas uma função reguladora.
Adam Smith e Marx, pensadores com visões distintas a respeito da sociedade, se viessem ao mundo de hoje talvez estivessem do mesmo lado da história. Com certeza não previam que o homem moderno contestaria toda a organização social que eles defendiam.
O homem médio brasileiro do século XXI voltou a despertar o seu caráter escravocrata dos séculos passados. Na minha visão, esse despertar se deu por ele ser presa fácil da tecnologia e das influências religiosas — acredita em tudo o que a tela lhe mostra e no que lhe dizem dos púlpitos das igrejas, mesmo tendo passado por uma educação formal nas escolas e universidades.
Aliás, responsabilizo, em grande parte, as universidades por muito do que irradia da mente desses homens, que se tornaram o farol da sociedade do século XXI. São homens técnicos, que sabem construir prédios modernos, desenvolver a agricultura, salvar vidas, ir à Lua, voar, criar grandes teorias econômicas e muitos outros avanços. No entanto, não aprenderam a pensar. Poucos cursos da área tecnológica e da saúde — para não dizer nenhum — promoveram uma análise critica dos grandes avanços tecnológicos associados ao seu impacto na mente humana.
O que vemos hoje são mentes cada vez mais abertas às tecnologias e fechadas ao humano. Não importa a miséria do outro, a escravidão do outro, o sofrimento do outro por ser diferente num mundo que não o aceita. O que importa é o ódio ao outro, a eliminação daquele que pensa diferente. O homem brasileiro, e podemos dizer universal, do século XXI é cada vez mais uma presa fácil dos ideólogos de políticas de supremacia racial.
Eu continuo sendo um comunista retrógrado (como provavelmente irão me classificar), cultivando as velhas ideias democráticas que aprendi com a vida, e que carregarei para o infinito. Na minha bolha não há lugar para pensamentos políticos que pregam a eliminação do outro.
Oscar Rezende
Vitória, verão de 2026
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