A perda da inocência

O livro O Tambor, do alemão Günter Grass, narra a história de um homem atormentado que, aos três anos de idade, se recusa a crescer. Ele sai pelas ruas batendo um tambor e dando gritos capazes de quebrar vidros, tudo isso como forma de protesto em um cenário de ascensão do nazismo.

Hoje cedo, ainda na cama, lendo as notícias terríveis deste mundo, perguntei-me como seria o meu protesto. Se fosse possível, eu também teria recusado crescer; permaneceria lá na Fazenda Velha, tocando o meu tambor, correndo livremente em contato com a natureza e sonhando com um futuro de glórias.

No aspecto individual, posso me considerar “um sujeito de sorte” ou, mais especificamente, um privilegiado, por ter nascido em uma família com alguma condição material, que me educou dentro de uma visão humanística e intelectual.

Hoje, já septuagenário, não tenho mais sonhos, pois não acredito na humanidade. Quando vejo o que vivemos atualmente, assusto-me. Como é possível que grande parte dos homens — alguns próximos de nós — acredite na mentira (que hoje tem até nome em inglês para atender aos vassalos: fake News), aplaudindo e torcendo por ideias nazistas e fascistas que caminham para dominar o mundo?

Não sei se sou um bobo ou um inocente por ter, durante algum tempo, acreditado nas pessoas. A minha consciência, forjada pelos livros e por um espírito humanista e realista herdado de meus pais, não me permite mais ver o mundo com os olhos de “Poliana”.

Um novo Satã, de cor laranja, resolveu ser dono do mundo, e um tal Deus, que tantos veneram em suas religiões, resolveu agir como Pilatos e lavar as mãos. Matam-se crianças e inocentes sem dó, apenas por carregarem na pele o gene de uma raça que, segundo esses novos satãs, não presta: negros, pobres, palestinos, iranianos e assim por diante.

Aqui vai um alerta para os que batem palmas e admiram a pirotecnia das bombas que matam: amanhã, vocês serão os alvos. Satã não tem amigos; tem fome de dinheiro e de poder.

Como já disse anteriormente, perdi a esperança no homem e, para me proteger, vou tocar o meu tambor dentro da minha bolha, abraçado àqueles que também carregam o mesmo pensamento e a mesma indignação diante de tudo o que acontece.

Ah! Antes que me esqueça: o Brasil também está sendo preparado para receber, com gosto, os ideais do nazismo e do fascismo, o que poderá nos levar a uma tragédia ainda maior do que as que já vivemos ao longo de nossa história.

Para me despedir, deixo aqui um desejo: tomara que eu esteja errado!

Oscar Rezende
Vitória, verão de 2026

Deixe um comentário

Blog no WordPress.com.

Acima ↑