O canhoto do padre

Os canhotos, essa gente esquisita que tem que se entortar toda para fazer as coisas mais simples da vida, devem sofrer muito. O mundo foi construído para os destros, tudo o que gira, gira para a direita, até o tempo que é marcado no relógio. Vivemos a ditadura dos destros. Os canhotos vivem um eterno jogo de desmunhecar ou aprender a lidar com as coisas do mundo usando a mão direita. Até a Bíblia discriminou essas pobres criaturas, nas escrituras o lado direito de Deus está reservado para as boas ovelhas, já o lado esquerdo é das ovelhas negras (aqui um duplo preconceito no livro sagrado: o canhoto e o negro). E para piorar: canhoto é também um dos “mil” apelidos do maior inimigo da humanidade, o diabo. Se bem que, em algumas situações,  usamos a   expressão idiomática “como o canhoto gosta” ( que acabei de adaptar), quer dizer coisa boa, pois transmite a ideia do prazer, em todas as suas facetas. 

Provavelmente na infância ou na adolescência, alguns canhotos sofreram represálias de professores e familiares, que os obrigaram a comer ou escrever com a mão direita numa tentativa   de adaptação,  provavelmente frustrante para eles.  Aprender a escrever com a mão de sua preferência já não é fácil, imaginem com aquela que não se tem destreza. A vingança, principalmente dos homens, veio no futebol. Os canhotos, em geral, são melhores jogadores do que os destros. O meu caso é uma exceção estranha:  não sou nem destro nem canhoto para o futebol, mas um verdadeiro perna de pau, não chuto com nenhuma das pernas.  Confesso a vocês que essa foi a minha maior frustração, não saber jogar futebol, mas, em compensação, virei torcedor do Vasco, e dos bons!

 O personagem de hoje, em que conto um caso que ocorreu com ele  no Colégio de Calçado, é um amigo que nos anos de 1960 sofreu preconceito por ser canhoto. Naquele tempo ainda não havia o entendimento, que se tem hoje, sobre as questões que envolvem o preconceito. Mesmo pessoas do mais alto nível intelectual, não se atentavam para bullying, como aconteceu com o professor, que representava às  terras estrangeiras e a Vossa Santidade no Colégio de Calçado, o padre Amando Gueertes.

O orgulhoso calçadense e Barão de General Severiano, José Antônio Lahud Neto, Toinha para os íntimos, canhoto e ruim de bola, conta, para quem quiser ouvir, que já teve uma desavença com o Padre Amando, seu professor de francês no Colégio de Calçado. Antes de se mudar para Niterói, fez uma parte da primeira série ginasial no colégio. Um certo dia, ao receber o resultado da sua primeira prova de francês, estendeu a mão esquerda em direção ao padre. Para a sua surpresa, ao invés de sentir na mão o suave toque do papel   almaço, o que veio foi o incomodo de uma cacetada, acompanhada de uma bronca do padre, exigindo que estendesse a mão direita. Criança ainda, de dez ou onze anos, não entendeu muito bem a reação do padre, pois em sua casa ser canhoto era natural. Aborrecido e com lágrimas nos olhos, o menino chegou em casa reclamando com a mãe, do acontecido. Segundo me contou a mãe virou uma onça! Foi até ao colégio para ter uma conversa séria com a Diretora, exigindo respeito do padre com o seu filho canhoto.

Nas histórias do Colégio de Calçado, muitas almas que sobrevoaram   aquele prédio sisudo foram canhotas, e provavelmente sofreram algum tipo de bullying de professores e colegas, mas o do padre está desculpado. Ele, por profissão, era leitor da bíblia, e, provavelmente aprendeu nos livros a   descriminar os canhotos.

Oscar Rezende

Vitória, agosto de 2019

2 comentários em “O canhoto do padre

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  1. Oscar, boa noite!
    Descobri o seu blog e viajo….. maravilhado com as suas cronicas. Apesar de não termos a mesma ideologia, de não torcer pelo mesmo time, alias em Calçado torcemos sim – somos Americano e, apesar da diferença de geração e principalmente da diferença cultural, que nos separa, tenho uma admiração grande pela sua trajetória profissional, alias me orgulho muito,
    de todos dos conterrâneos que se destacam em qualquer área.
    Para me identificar, sou filho da Sebastiana Margarida, costureira e amiga de Dona Nadia. Ainda hoje Ela reside em frente a porta principal do Ginásio de Caçaldo.

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