O diálogo

—- Olha só! Nesses tempos de quarentena, em que dedico parte do meu tempo para conversar comigo mesmo, resolvi chamar você para um papo sério, e lavarmos nossas roupas sujas.

—- Nossa! Me assustei com esse tom que você  me chamou para conversar, mas vamos lá. Qual é a sua reclamação?

 —- Vou fazer várias reclamações, pois muito do que você fez, ou deixou de fazer, trouxe reflexos para a minha vida. Eu sempre gostei de jogar bola, e você não me ajudou, sempre foi péssimo jogador, uma frustração que até aceitei com bom humor; eu queria tocar piano, mas o que você fez, depois de quase quatro anos de estudos? Resolveu parar, atendendo aos amigos que diziam ser coisa de “veado”. Lembra disso?

—-  Essa do piano você tem razão, foi um vacilo meu. Mas você também me frustrou. Quer que lhe diga?

—-  Por favor!

—-  Eu queria ser motorista de caminhão, e você não foi, eu queria ser repórter de futebol, e você não foi. Eu queria tantas coisas: viajar pelo mundo, ser rico, sonhava até em ter um iate. E você não respeitou os meus sonhos! Virou professor, uma profissão que nunca sonhei. E, para aumentar a minha frustração, nem viajar você gosta! Vive dando desculpas esfarrapadas para não conhecer o mundo, e por preguiça. Agora, vem você dizer que te sacaneei?

—- Tirando a parte do viajar, ainda bem que não lhe atendi no resto! E tem mais: está se exaltando atoa, eu não disse que você me sacaneou, mas, suas decisões trouxeram algumas frustrações para a minha vida. Quer que eu as aponte?

—- Sou todos ouvidos!

—- Você não foi um aventureiro, muito pelo contrário, sempre se ajustou as ordens estabelecidas, era o queridinho das mães, para casar as suas filhas. Você não contestava, foi um verdadeiro “bundão”, e para completar, comportou-se como um alienado político durante a ditadura, inclusive votou na Arena, uma vergonha que eu tive que consertar com o tempo.

—- Tai uma coisa que concordo com você. Ainda bem que não me seguiu, e deixou que o tempo lhe transformasse em alguém mais rebelde e progressista, que procura entender o mundo, domando os seus preconceitos e com um olhar mais social do que econômico.

—- Sabe por quê? Porque tive o privilégio de ser professor, uma profissão que você sempre desdenhou, mas que trouxe-me uma visão de mundo que não troco por nenhuma outra que você desejou. Infelizmente vamos ter que encerrar por aqui… ainda há muito o que conversar, mas vamos deixar para outro momento. Mas, antes de te mandar de volta para o passado, quero matar uma curiosidade: o que fiz na vida que você acha que acertei?

—- A sua família! Nessa você superou meus sonhos!

Oscar Rezende

Vitória, abril de 2020

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