O vazio da cidade

O velho! Como ele está mal falado!

“Fica em casa velho!”

“Esses velhos não respeitam o isolamento e vivem dentro dos supermercados!”

“As famílias é que cuidem dos seus velhos!”

“Esses velhos são sem noção!”

“Os bares estão cheios de velhos!”

“Vão morrer alguns velhos, mas o país precisa trabalhar!”.  

E, por aí vai… Velhos! Velhos! Velhos! É consenso que as cidades precisam ficar vazias de velhos. Pois sem os velhos a economia anda. Esse vírus veio para comprovar o darwinismo social, ele irá matar os velhos mais fracos, os que estão destinados a morrer mesmo!  Lá no fundo, muitos pensam assim! Essa é lógica racional da nossa sociedade.

No cotidiano, os velhos são um atraso de vida: quando vão às compras eles quebram a harmonia do silêncio. Puxam conversas com os vendedores, querem saber se o produto está bom, se o vendedor é vascaíno, é flamenguista, se vota em A ou em B, são lentos para contar o dinheiro, lembrar a senha do cartão, ou seja, eles atrasam a vida!

E quando vão às ruas? Os cabelos brancos, as bengalas, o andar lento, as corcundas e as rugas atrapalham o movimento e a estética da cidade dos jovens!

Mas, eu me pergunto: “o que seria uma cidade vazia de velhos?” Para mim, uma cidade sem vida. Se iludem os que pensam que a juventude é sinônimo de vida! A vida necessita da arte, da literatura, do amor, da ciência, da economia, da experiência… Para que tudo isso exista a vida precisa frear o tempo, um dom  que que só os velhos têm! Meus amigos, uma cidade sem velhos não existem, um mundo sem velhos não existe, um universo sem velhos não existe. O Velho é o sinal da vida!

Por favor fiquem em casa!  Para que vocês consigam o dom de frear o tempo…  Vamos envelhecer! O mundo precisa continuar existindo!

 Oscar Rezende

Vitória, abril de 2020

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