Situado em um ponto estratégico, no meio da ladeira por onde a cidade anda, no primeiro andar de um velho casarão do início do século XX, reflexo de um tempo em que a produção do café movimentava a economia da região, está o Bar do Crissaff.
A decoração é muito simples, comum a todos os bares do Brasil. São dois espaços: o “Reservado”, com uma mesa redonda ao centro, rodeada de cadeiras; e o salão principal. Num dos contos desse salão, está um balcão de madeira em forma de L; na madeira marcas antigas deixadas por cupins, que desistiram de apreciar as delicias da celulose que a vive encharcada das pingas doadas ao Santo. Encostada na parede atrás do balcão, fica a prateleira de bebidas, principalmente cachaças, das mais variadas marcas: Fazenda Velha, Velho Barreiro, Cinquenta e Um (51), Levanta Velho, Lustra Rabo, e por ai vai… No outro canto do salão uma Mesa de Pebolim (vulgarmente conhecida por totó); e, no meio do salão, em frente as duas portas de acesso ao bar, uma pequena mesa de sinuca. Espalhadas pelo salão principal encontram-se algumas cadeiras, de pernas bambas, para acomodar os cansados da vida.
Tudo o que é vida na cidade conflui para o Bar do Crissaff: o poder, o vício, a prostituição, os cachorros vadios, a traição, a paixão, a rebeldia, a miséria e as artes. No “Reservado”, ao redor da mesa, jogando canastra ou poker, acompanhado da cerveja, do conhaque e de outras bebidas, o poder se reúne. Lá estão o prefeito, o deputado, o juiz, o promotor, o delegado, o professor, e, às vezes, o padre, com os seus dedos amarelados pelo cigarro. Naquele ambiente eles discutem os problemas da cidade, em todas as suas dimensões, do administrativo ao espiritual, e são traçados os destinos do povo, sem o povo, é claro!
O salão principal é ocupado pelo povo, que não se importa e não sabe o que se discute no “Reservado”. A puta mais feia e desdentada da cidade oferece sexo em troca de um gole de cachaça. Mesmo sabendo que o mais provável é encontrar alguém que lhe pague a bebida, sem desejar o que tem a oferecer, ela continua se expondo em poses sensuais; o miserável cachaceiro, se achando um poeta, incomoda os presentes, disputando com os cachorros vadios os restos de bebida e de comida, pouco se importando em manter uma dignidade que não lhe pertence.
As jovens adolescentes, contrariando os pais que as proíbem de frequentar o Bar do Crissaff, se exibem na mesa de sinuca, tomando cachaça com gelo, imaginando que assim estão quebrando as regras entranhadas em suas almas, e que mais tarde irão reproduzi-las para as futuras gerações. Já os jovens comportados da cidade estão jogando totó, imaginando como vencer a timidez e se aproximar das meninas rebeldes da sinuca, para tentar dar-lhes um amasso digno de macho, que acreditam ser.
Sentado num dos cantos do balcão, tomando um conhaque e ouvindo o cantor acompanhado por um violão cantando “o ébrio”, está o homem estranho… banhado de perfume Lancaster e de brilhantina no cabelo, à espera que o outro homem suba a ladeira, para, então, desce-la! E trair a sua esposa com a esposa do homem que subiu a ladeira.
Comandando toda essa orquestra está o dono no bar, o lendário Crissaff, regendo os que estão no salão, com o seu jeito escrachado de ser, e os que estão no “Reservado”, com gentileza.
Assim…. A vida da cidade é encenada no Bar do Crissaff!
Oscar Rezende
Vitória, inverno de 2020
Que maravilha…
Mesmo sem haver frequentado ou conhecido o citado estabelecimento, me senti lá, até o cheiro do “Lancaster” me encheu as narinas…
Show de escrito!
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obrigado Luis
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