Cinema de rua

Uma das essências que perfumam a minha alma é o cinema! Ele é um companheiro que me ajuda a viver, explorando as minhas emoções. Nessa pandemia, tenho me contentado em assistir os filmes pela TV, mas, não me satisfaz… deixa um vazio na alma! Gosto mesmo é de ir ao cinema: sair de casa, comprar ingresso, ver os cartazes dos filmes, ficar na fila e conversar com pessoas que também gostam da sétima arte. Esse contexto proporciona um ambiente que me faz bem. Não sei como as salas de cinema irão superar os imensos prejuízos que estão tendo? Eu, particularmente, temo pelo Cine Jardins, em Vitória (ES). São duas salas de projeção que brilham como um oásis nesse vazio deixado pelo fim dos cinemas de rua. Apesar de estar em um pequeno Shopping, aguça as lembranças dos cinemas que iluminaram as cenas do filme em que sou o ator principal, o da minha vida.

Vez ou outra vou à Viçosa (MG), uma cidade que é parte da minha vida, visitar velhos amigos. Quando me aproximo da cidade e vejo as montanhas onde o sol e a lua se escondem, após iluminar a vida dos seus habitantes, sinto um frio de saudade na barriga, lembranças de um tempo muito feliz, de aprendizado e de construção da vida.

Foi no início da década de 1970, que lá cheguei para estudar, a cidade ainda era pequena (aproximadamente 25000 habitantes). As suas ruas eram sujas, feias, calçadas com pedras fincadas, que pareciam “pés-de-moleque”, com muitas casas velhas e simples. Tinha um costume dos seus moradores que me intrigava: as casas eram ornamentadas com uma cruz de flores pregada na porta principal. A cidade tinha uma aparência decadente, mas, na verdade, uma falsa impressão: era vibrante e tinha uma vida cultural intensa… nas ruas pulsavam corações jovens, alegres e cheios de sonhos, dos estudantes, contrastando com o momento triste que vivia o país. A maioria dos jovens que estudavam na UFV (Universidade Federal de Viçosa) eram alienados e não tinham consciência do que acontecia nos porões da ditaduras, eram, em geral, oriundos das cidades do interior do Brasil, governadas pelos coronéis da política local que davam sustentação ao governo ditatorial.

O que despertou a minha atenção naquela pequena cidade foi a quantidade de cinemas: eram três, que divertiam os jovens estudantes.

O melhor era o Cine Brasil, que passava filmes em CinemaScope, uma tecnologia de projeção moderna à época. Dos filmes que assisti no Cine Brasil, dois estão nas minhas lembranças: Um homem Chamado Cavalo, com Richard Harris e o clássico do terror, O Iluminado, estrelado pelo genial Jack Nicholson.

O cine Marajá ficava na avenida Santa Rita, que na primavera cobria-se com as flores dos ipês amarelos. Para anunciar o início de um filme, tocava-se, no cinema, a música “El Condor pasa” acompanhada da imagem projetada na tela do pássaro se preparando para voar. A plateia também fazia a sua parte, gritando em coro: xô, xô, xô, ….

O filme que estimula a lembrança desse cinema é Psicose, de Alfred Hitchcock. No dia que fui assistir ao filme um estudante deu o maior spoiler (estragador, para o meu amigo Pedro J. Nunes): estávamos na fila da segunda sessão no momento que o sacana saiu do cinema gritando:

— Povo da fila, o filme é muito bom, vocês vão adorar! Só vou contar um pequeno detalhe: a mãe é ele!

O terceiro cinema, o Odeon, era o menor dos três e, também, o menos frequentado pelos estudantes, mas, mesmo assim, passava filmes que foram marcantes na minha juventude. Foi lá que assisti um dos filmes mais censurados pela ditadura militar, Z, do genial Costa-Gavras, estrelado por Yves Montand, Irene Papas e Jean-Louis Trintignant. Aliás, esse ator atuou até recentemente, com os seus quase noventa anos. O último filme que assisti estrelado por ele foi Amor, que considero um dos mais impactantes que assisti, pois retrata a velhice e a morte com uma estética realista.

O cinema continua refletindo em mim a sua magia, é uma das janelas de onde acompanho a vida; só sinto saudades do tempo em que ele era de rua… hoje, só é possível encontrá-lo nas badalações do Shoppings.

Oscar Rezende

Vitória, setembro 2020

Um comentário em “Cinema de rua

Adicione o seu

Deixar mensagem para luis carlos giuberti Cancelar resposta

Blog no WordPress.com.

Acima ↑