Essa história se inicia em dezembro de 1970, durante um almoço de domingo com a família reunida, uma exigência do meu pai, que não admitia filhos fora da mesa. Terminado o almoço, papai tomou a palavra e se dirigiu a mim:
—Oscar Luiz, Calçado está pequeno para você: malandragem, jogo de sinuca e bebedeira não vão levar você a lugar nenhum! No próximo ano você vai para Vitória (ES), morar com as suas irmãs, trabalhar de dia e estudar à noite.
Aquilo me soou como o maior castigo da vida! Teria que largar os amigos, o amor da adolescência e aquela vida livre sem responsabilidades, ou seja, o que havia de mais importante para mim. Mas, ordem dada era para ser cumprida!
O ano de 1971 foi duro e de muito aprendizado. Em 1972, resolvi mudar o rumo da vida! Deixei Vitória para trás.
Cheguei em Viçosa (MG) e fui estudar no COLUNI (Colégio Universitário), uma escola ímpar, que só tinha uma série, o terceiro ano científico, vinculada à Universidade Federal de Viçosa. Foi um tempo de muita “ralação” nos estudos, o ensino no COLUNI era muito bom, e continua sendo, o Colégio é considerado hoje a melhor escola pública de ensino médio do Brasil. Os professores eram exigentes, e a maioria dava aulas no ensino superior da UFV (Universidade Federal de Viçosa).
Quando cursava o segundo ano de matemática fui selecionado pelo Departamento para ser monitor de matemática do COLUNI. Começou, então, a minha história com o COLUNI e com a Célia (Célia Maria da Paz). Ela tinha acabado de ser contratada pela UFV, para ser a secretária do COLUNI. Apesar de ainda jovem, tinha a postura daquelas secretarias velhas e chatas de escola. Sabia tudo da parte administrativa, cuidava dos horários, dos planos de aula e das reclamações dos alunos, cortávamos um dobrado com a sua rabugice. Assim que comecei a dar aulas, como monitor, tinha o maior medo dela! Mas, o tempo e a vida se encarregaram de nos proporcionar uma sólida amizade, que continua até hoje.
Assim que me formei, a UFV tomou a decisão de ampliar o COLUNI, criando um quadro próprio de professores… fiz concurso para a única vaga de professor de matemática. O resultado demorou mais de mês para ser divulgado, e, na angústia da espera, era a Célia quem me tranquilizava, torcia muito para que eu fosse aprovado, o que aconteceu.
Com a minha efetivação como professor, eu, a Célia e outros colegas de profissão ( fraternos amigos que ainda falarei sobre eles) começamos a construção do COLUNI, que hoje é um orgulho para o ensino público brasileiro.
Com o tempo, o Colégio foi se ampliando e passamos a oferecer todo o ensino médio. Por lá estudaram muitos alunos que hoje são referências em diversas áreas profissionais no Brasil.
Quando começou o processo de abertura política e os cargos de chefia passaram a ser ocupados por pessoas escolhidas por seus pares, fui o primeiro diretor eleito do COLUNI. A Célia, que já era chefe de secretaria, foi o meu braço direito e esquerdo… me ajudou a entender a estrutura administrativa da UFV e a resolver diversos problemas relacionados ao cargo de Diretor. Só não seguia os seus conselhos quando se tratava das relações com alunos e professores, ela era mais dura do que eu, queria que eu impusesse, com mais vigor, a minha autoridade. Mas, não atendia os seus apelos, continuava com meu jeito conciliador, de passar panos quentes nos conflitos. Se eu tivesse que fazer tudo de novo, faria como fiz!
Célia também foi minha parceira nos livros, era uma leitora qualificada, fazíamos parte de um clube do livro e trocávamos muitas impressões sobre os livros que liamos.
Quando voltei à Viçosa, para fazer o meu doutorado na UFV, ela, já aposentada, me deu todo o suporte na cidade. Me ajudou a alugar apartamento, comprar alguns móveis, e, principalmente, foi uma excelente companhia nos cafés de fim de tarde, quando trocávamos ótimos papos: retrôs e atualizados.
O tempo passou, o mundo mudou, mas a minha consideração e amizade com a Célia continuam intactas. Assim que nos encontrarmos novamente, se Deus quiser, tudo será com sempre foi entre nós, nessa nossa longa relação de amizade e de confiança.
Célia Maria da Paz, que Deus lhe dê muita paz!
Oscar Rezende
Buenos Aires, setembro de 2020
Show, esses seus relatos são sempre inspiradores e também me remetem a saudosas memórias…
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Obrigado Luiz
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