Ontem estava lendo uma crônica da Clarice Lispector em que ela descrevia a existência de um ser que morava dentro dela: um cavalo preto, lustroso e inteiramente selvagem. Lembrei-me, então, do ser que mora dentro de mim, com quem estou sempre conversando, e que vive me cobrando: por que não fui assim ou assado? Por que não fiz isso ou aquilo? E assim vai…
Da infância ele me cobra um monte de coisas: por que não fui mais aventureiro? Por que tinha medo de andar em cavalo que empinava? Por que não mergulhava de cabeça no rio? Por que não fui valentão e enfrentei os colegas chatos, caindo na “porrada” com eles? Por que fui tímido na escola? Ele gosta muito de cobrar, mas, na realidade nunca me ajudou… agora não adianta ficar buzinando nos meus ouvidos, o tempo se foi!
Da adolescência ele me cobra pela pouca ousadia, pouca graça e por não me impor pela simpatia e o bom humor. Me cobra por não ter deixado que a adrenalina lavasse a minha alma, roubando frutas no quintal dos vizinhos e tomando galope de cachorro bravo, ou brigando no meio da rua. Às veze ele se esquece que fui assíduo viajante no Jeep do João Bosco e no fusca do Luciano Medina, quer adrenalina maior?
No amor ele também me cobra! Diz que namorei pouco e amei pouco. Me repreende por não ter desenhado, com um canivete, o meu nome e o dela dentro de um coração, num tronco de eucalipto perto do Hospital. Além de me cobrar as coisas do amor, gosta de me sacanear, dizendo que eu era um jovem certinho, o preferido das mães para namorar com suas filhas… essa acusação é dura de ingerir!
Na minha fase de estudante universitário, o ser que me habita foi menos severo comigo, talvez tenha sido o momento em que começamos a nos aproximar. Mas, mesmo assim, ele ainda me cobra por alguns vazios que deixei. Ele diz que eu poderia ter sido mais ativo politicamente, participado mais dos movimentos estudantis e saído da minha bolha, convivido com pessoas mais engajadas politicamente e ter sido mais solto em meus desejos. Também me cobra pelas oportunidades que deixei passar. Durante o último ano da graduação o meu orientador acadêmico, o professor Fábio Ribeiro Gomes — um cientista inquestionável e pioneiro na implantação da computação na UFV— traçou o meu caminho após a formatura:
— Oscar, Você vai para a UFMG, fazer o mestrado em matemática e depois vou te enviar para a Inglaterra para fazer o doutorado.
Só percorri um pequeno trecho desse caminho, comecei o mestrado na UFMG, mas, na primeira encruzilhada, mudei o rumo do meu destino e fui trabalhar.
À medida que caminhamos pelo tempo eu e o meu ser vamos nos entendendo, ele me cobrando cada vez menos da vida. Mas ainda vigilante. Me cobrou recentemente o porquê de não demonstrar, com mais intensidade e espontaneidade o amor pela minha esposa e filhos?
E como é função dele sempre me questionar, veio agora com essa:
— Por que você resolveu me fazer o seu principal interlocutor? Não acha que está se fechando muito em si mesmo e vivendo intensamente a contemplação?
— Vou procurar entender o seu questionamento, seu chato de galocha!
Oscar Rezende
Vitória, setembro de 2020
É, esse final foi bem interessante e engraçado, o meu, esse meu ser, vive com alguns questionamentos parecidos com os seus e eu estou até aceitando alguns e colocando em prática…
Um deles é “não seja idiota, faça agora as coisas que te dão prazer enquanto pode”…
Estou tentando seguir a risca!
Abraço.
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