Prudência e canja de galinha

— Prudência e canja de galinha não fazem mal a ninguém — Já dizia mamãe quando estávamos exaltados com alguma situação. Eu nem sempre segui o seu conselho… em várias situações a minha imprudência falou mais alto, se nada de pior me aconteceu foi por pura sorte.

Minha companheira Ana e minha filha Barbara são duas mulheres fortes e valentes, sabem enfrentar os desafios que a vida lhes impõe. Mas, em várias situações, observei que a prudência passou longe delas.

Ana sempre contestou a cobrança do estacionamento no Shopping Vitória. —Deveria ser grátis, afinal estamos ali dando lucro para o comércio e pagando impostos, — diz ela. Com essa lógica achava um desaforo deixar o carro no estacionamento do shopping, estacionava numa rua que passa nos fundos do prédio. Eu por várias vezes alertei que essa prática era uma imprudência, mas não adiantava (se conselho fosse bom a gente vendia né?); acreditava que nada lhe aconteceria.

Pois bem! Um dia, por volta das 20:00h, ela foi trocar um sapato da neta e estacionou o carro atrás do shopping… Não deu outra, ao retornar foi sequestrada por dois bandidos e abandonada no meio do mato na rodovia do contorno. Por sorte, ou por desejo da mão invisível que comanda o universo, nada de grave lhe aconteceu, perdeu apenas o carro.

Barbara, num de seus momentos de imprudência, quase nos jogou numa fria daquelas, com consequências que poderiam ser trágicas (um pouco de suspense para deixar o leitor curioso). Estávamos no México, numa cidade chamada Ciudad del Carmem, um balneário parecido com Búzios, só que maior.

O nosso voo de volta para Recife seria às 7:00h, partindo de Cancun, distante 70 km de onde estávamos. Saímos de madrugada, às 3:30h, em direção ao aeroporto. A autoestrada era excelente, e estava totalmente deserta àquela hora. Quem dirigia o carro era o meu genro. Havíamos percorrido uns 20 km, já estávamos fora da cidade, numa região deserta sem qualquer sinal de civilização, tendo como companhia apenas uma vegetação rasteira dos dois lados das pistas. De repente, surge um carro de polícia (ou fantasiado de carro de polícia) atrás do nosso carro, fazendo sinal para paramos. Fomos abordados por um policial (ou alguém se fazendo de policial) mal-encarado, e portando um revolver, de tamanho assustador, totalmente à mostra. A presença daquele homem armado despertou na minha mente o ditado que mamãe sempre dizia… Era um momento para a prudência.

Eu e o meu genro, numa comunicação sutil, percebemos o perigo… estávamos num país estranho, numa região inóspita, e numa estrada deserta, local propicio para desova de cadáveres. O tal guarda nos abordou, de forma dura, afirmando que havíamos ultrapassado um sinal vermelho a cerca de 2 km, sinal que tínhamos a certeza de não existir.

Meu genro trocou algumas palavras com o guarda, e saímos, os dois, do carro, sem contestar as suas alegações… Pagamos uma suposta multa de 300 Dólares sem nenhum recibo ou coisa parecida. Enquanto acertávamos a propina, minha filha, sem mais nem menos, sai do carro e sem prestar atenção no contexto, dá uma volta no carro do policial fazendo anotações e fotografando os dados do veículo. Eu, desesperado, fazendo aqueles sinais manjados, que vocês conhecem bem, para “zangar” com um filho sem que ninguém perceba. Por sorte, o guarda entretido contando os dólares não viu!

Quando eu o meu genro reclamamos com Barbara da sua imprudência, pois estávamos numa situação totalmente vulnerável… se aquele guarda se enfezasse com a gente, poderia dar fim às nossas vidas sem que ninguém desse conta, só viraríamos notícia de jornal… Para se justificar, Barbara disse apenas uma frase:

— Vocês são dois moloides!

Oscar Rezende

Vitório, novembro de 2020

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