Tormento e demônios

O sol não havia ultrapassado as copas das árvores e a sombra ainda cobria a estrada que margeava a mata. Rafael bateu à porta.  Ao recebê-lo Horácio estampou um breve  sorriso:

—Não o esperava tão cedo! Soube que você chegou ontem?

— Sim, no final da tarde!  Papai amanheceu febril, aproveitei para vir  à fazenda  buscar o leite. Peguei a bicicleta antes do sol nascer e resolvi passar aqui bem cedo, para que ninguém me visse.

Assim que Rafael entrou, Horácio caminhou em direção ao fogão de duas bocas e arrumou   os gravetos e os sabugos, impulsionando o fogo. Um velho cobertor jogado às costas ajudava-o a conter o frio de julho… àquela hora da manhã o zinco do telhado ainda estava umedecido pelo orvalho da noite, deixando   o ambiente ainda mais frio.  Rafael aproveitou o fogo que brotava da lenha, retirou as luvas para aquecer as mãos,  e foi sentar-se no banco ao lado da pequena mesa de escritório, que agora era utilizada    para as refeições. Os movimentos de Horácio eram trôpegos, indicando que a maldita doença avançava.   

Quando o alambique encerrou a  produção de cachaça, o pai de Rafael, em agradecimento ao ótimo trabalho prestado por  Horácio,  deixou que ele ficasse morando  no antigo escritório da empresa. Num dos cantos havia uma cama e   um armário para guardar as roupas e pequenos objetos pessoais. No outro, Horácio    montou a cozinha:  uma pequena prateleira para guardar os alimento, e próximo  da janela  ficava um antigo fogão de ferro, de duas bocas, alimentado por pequenas lascas de lenha, No centro do cômodo estava  a mesa utilizada nas  refeições.  O velho rádio de válvula, que Horácio comprou nos tempos áureos do alambique, ficava junto aos livros, numa mesinha de cabeceira.  Ele sempre gostou de ler, escutar  músicas clássicas na rádio MEC  e as transmissões do futebol.

O cheiro do café invadiu ambiente, sobrepondo ao ranço de mofo, que vinha da  alma de Horácio e o das paredes de tábuas escurecidas pelo tempo e  pela chuva.   Horácio foi   até à prateleira, pegou uma lata de bolachas, colocou-a sobre a mesa, sentou-se no outro tamborete e serviu, claudicante, café aos dois.

  — Tudo o que faço é com a mão direita.  A mão esquerda mal serve para escorar a bengala, quando preciso usar a mão direita para cumprimentar quem vêm me visitar.  Disse Horácio, conformado com a  sua condição física.

—Mas vejo que está disposto, não mudou nada desde a última vez que estive aqui. Comentou Rafael, contrariando a realidade. A  maldita doença não dava trégua,  o corpo de  Horácio murchava. Os olhos estavam fundos, realçando os   ossos em torno, o que permitia divisar o   formato da cabeça da sua caveira. A magreza se espalhava por todo o corpo, uma pele fina, sem brilho e com manchas escuras deixavam salientes os ossos dos seus braços e mãos. O seu estado era assustador.  Se tivesse uma pequena queda, os seus ossos se quebrariam  como vidro.

— Faz um bom tempo que você não aparece!

— Seis meses! A vida   na universidade é boa e de muito aprendizado, mas também de responsabilidades, o que me impede de aparecer. Disse Rafael, acendendo um cigarro para aproveitar o gosto do café. Ofereceu outro a Horácio, que preferiu arrancar o filtro, reclamando que o impedia de sentir gosto do fumo. Os dois ficaram  em silêncio, divagando em seus pensamentos  e apreciando   o vai e vem da fumaça   que levavam aos pulmões e devolviam ao ar.   Horácio parecia angustiado com a presença Rafael, estava ofegante e as mãos   tremiam. Havia alguma coisa em Rafael que o incomodava. Mesmo que  tentasse parecer o mais natural possível, como sempre fez das  outras vezes que ele  esteve ali, não conseguia. De repente Rafael tossiu, quebrando o silêncio:

— Não seria bom você mudar para a cidade? Já imaginou se passar mal aqui sozinho e cair, não tem ninguém para te acudir!

— Só saio daqui para o cemitério, todas as minhas alegrias, tristezas e ódios passei nesse quarto, quero enterrá-las aqui. Respondeu Horácio, de forma categórica.

Rafael continuou a sua argumentação, fazendo voltas para entrar no assunto que o trouxera àquele  lugar:

— Mas deveria  pensar nisso! Aqui é muito deserto, e as ruinas desse alambique só atraem fantasmas.

— Só os fantasmas da minha solidão,  estou acostumado com eles,  vivem  comigo desde sempre. Não reclamo, afinal envelhecer não é uma tragédia, temos o passado para nossa mente visitar e nos trazer de lá as boas e más notícias… O tempo é o responsável por nos apresentar à nossa maior companheira, a lembrança. Quando ela nos abandona estamos mortos, mesmo que ainda continuemos a perambular com as pernas que não sabem onde estão e para onde vão. Poetizou Horácio, soltando mais um baforada naquele ar pesado de fumaça e de lembranças doídas.

— E a morte, não tem medo de que ela te pegue sozinho aqui? Perguntou Rafael de forma sutil, preparando para  trazer à tona os segredos que incomodavam  sua alma.

— Não tenho medo, só não quero passar por muitos sofrimentos. Infelizmente eu não me cuidei:  bebi muito, abusei do sexo sujo, e a doença chegou. Agora tenho que viver com ela. Respondeu Horácio, conformado com as decisões que havia tomado na vida.

Rafael aproveitou a resposta para direcionar o conversa para onde deseja.

 — É só a doença que pode abreviar a sua vida? E os seus remorsos,  não contam?

— Tudo que fiz nessa vida foi por amor, mesmo que tenha causado alguns sofrimentos: a mim e aos  outros.

—   Você imagina o que vim fazer aqui, depois de tanto tempo sem aparecer? Perguntou Rafael, imprimido um tom ameaçador na voz, numa tentativa de trazer à tona o medo que acreditava habitar a alma de Horácio.

— Por um tempo cheguei acreditar que você havia esquecido, afinal a vida lhe abriu as portas. Um homem bonito como você, que já está para se formar, não terá dificuldades em arranjar uma boa moça para casar e formar família. Mas, pelo visto você não esqueceu; e ainda teve a frieza e a  paciência para esperar o tempo me debilitar, e não correr nenhum risco de uma reação. Respondeu Horácio, levando à boca outro cigarro, que estava entre os seus dedos amarelados pela nicotina.

— Tem razão! Não seria difícil para mim arranjar um bom emprego e formar uma família. Essa é a lógica consensual. Só não é para mim! Você alguma vez pensou o que se passa com minha alma,  se eu  já exorcizei  os demônios   que você me presenteou na  infância?

— A minha alma também sofre, muita coisa que fiz não foi por decisão consciente, mas pelas minhas fraquezas,  que, às vezes, tomaram as rédeas da minha vida. Respondeu Horácio, fazendo uma expressão de arrependimento, tentando se justificar.

— Os meus demônios me dizem que enquanto eu não der fim a essa minha agonia — que você sabe qual é— eles não me abandonarão. Talvez estejam mentindo para mim, mas, só tenho como saber se fizer o que me trouxe aqui.  Disse Rafael, num tom de  voz um pouco acima do normal.

— Eu sei, percebi isso nos seus olhos, assim que abri a porta para você entrar.  Concluiu Horácio!

— Está com medo do que vai encontrar? Perguntou Rafael, com um sorriso sarcástico de satisfação.

— Tenho medo da dor que me levará até o momento, como já disse, mas do mistério que vem depois, não tenho medo. Só lhe peço que seja rápido, afinal não precisamos  cultivar mais sofrimentos. Disse Horácio, conformado com a situação.

— Não vou lhe fazer nenhuma concessão, você irá sentir mais dor do que a que senti   naquele dia em que arrancou o meu calção, me colocou encima dessa mesa,  e me estuprou, me arrebentado todo  por dentro. Eu tinha apenas dez anos, você me convenceu a vir aqui no escritório para me presentear com um caminhãozinho de madeira, lembra?  Naquele momento senti muita dor  física, mas  depois veio a dor da alma, uma dor que sinto sozinho, nunca dividi com ninguém, afinal é  uma vergonha proibida para qualquer homem. Você alguma vez na sua vida pensou nessas dores que senti?  Perguntou Rafael com lagrimas nos olhos, mas com uma expressão  decidida no rosto.

— Eu sei que você não consegue me perdoar, mas o que fiz foi por amor. Você continua sendo o amor da minha vida. Sofro muito por amar você,  e sem nenhuma expectativa.  Desde a primeira vez que apareceu no alambique, quando ainda era um garoto, me encantei.  Só não soube ser paciente, e esperar o tempo certo para te ensinar o amor. Os meus demônios me obrigaram a antecipar. Não se preocupe, a  sua vingança já foi feita, o seu desprezo é muito mais dolorido do que a morte.  Falou Horácio, também com lagrimas nos olhos.

— Não, o seu sofrimento por amor não me basta, é preciso que sinta a dor física, pois o que você chama de amor só me trouxe sofrimentos, transformou-me em um homem que não consegue ser feliz, pois tenho que esconder os desejos que você inoculou em mim?

Secando as lagrimas com a camisa, Horácio   olhou, com tristeza, para  Rafael.

—  Você tem tempo de se encontrar, ainda não feriu ninguém, e o mundo é outro hoje, não é mais preciso viver nos guetos mendigando o amor, como fiz a vida toda.  Olhe bem para mim, já não tenho mais esperanças, não siga por esse caminho, não vale a pena, o remorso é a morte em vida.

 Rafael calou-se! Não conseguia intuir se Horácio estava sendo sincero ou se era uma artimanha para escapar do destino que se aproximava… Não desejava mais continuar com aquele dialogo. Levantou-se, foi até janela,  e abriu-a, deixando que a fumaça dos cigarros e a do fogão fossem embora. Um ar renovado tomou conta do ambiente. O sol da manhã de inverno já se fazia presente. Um solitário canário da terra, sem se importar com a presença de Rafael, cantava magistralmente em um pé de manacá   próximo à janela. Rafael debruçou-se sobre o peitoral da janela, acendeu mais um cigarro, olhou para o canário ensandecido e, em silêncio,  comunicou-se, espiritualmente,   com seus  demônios, implorando para que  não o  deixassem fraquejar.

Oscar Rezende

Buenos Aires, outono de 2021

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