O sertanejo

Vivi na fazenda os meus primeiros 11 anos, esse tempo é uma das maiores riquezas que carrego na memória. Nas noites de inverno, sentados ao redor do fogão de lenha, tomando a gemada que meu pai fazia com todo carinho, escutávamos as histórias que minha mãe nos contava. Não tinha como não acreditar nas cenas que descortinavam com a dramaticidade, gestual e emoção, que ela juntava   às palavras.

A pobreza não consegue tirar o ânimo do sertanejo, são fortes e valentes trabalhadores, que enfrentam as dificuldades da roça, faça sol ou faça chuva, para conseguir trazer para casa o pão de cada dia. Acreditam que essa é a vida que Deus lhes deu, e não há o que reclamar. Seu Ouvídio era um desses homens, ele vivia na fazenda do vovô. Além de valente, era um exímio contador de histórias, reunia as crianças para escutá-lo tocar sanfona e contar casos.

Um dia seu Ouvídio e vovô siaram para cortar madeira, que seria utilizada na construção da casa do sítio Alto Ligação. Em dado momento, ouviu-se o cantar de um galo, mais parecido com garnisé. Vovô estranhou, pois ali não era o lugar que vivia aquele tipo de ave. Antes que ele falasse qualquer coisa, seu Ouvídio, meio curvado, murmurou baixinho ao seu ouvido:

—Venha cá meu filho, vamos subir naquela árvore, bem depressa. Esse bicho que cantou é cobra urutu, que se morder na gente mata ou aleija o coitado. Vale-nos Deus!

Sem pestanejar vovô e seu Ouvídio subiram na árvore, de onde puderam ver, chiando no chão, levantando as folhas, um grosso pedaço de pau. Ele chiava quase voando, deixando, vovô preocupado… Era um perigo a cobra urutu!

Seu Ouvídio tinha uma cachorrinha muito veloz e inteligente  que entrava no mato para caçar veados, onças e capivaras. Era a cachorrinha Boa Vista. Numa tarde ela não voltou para casa. Seu Ouvídio, preocupado, pois ela era-lhe fiel e guardava o terreiro à noite, resolveu entrar no mato de espingarda em punho. Andou bastante, penetrou fundo na mata, quando viu a cachorrinha morta toda mordida, e ao lado, uma enorme cobra com  a barriga aberta, de onde saía, através do rasgo, um macaquinho bem taludo. A cobra era uma jararaca bico de jaca. Tudo fazia a crer que ambas, a cachorrinha e a cobra, haviam lutado muito sem haver vencedor.  O único que se deu bem foi o macaquinho, que saiu, serelepe, pulando nas  árvores.

Quando criança seu Ouvídio vivia numa tal Fazenda da Prata. Na cozinha estavam ele e outros moleques, sentados com o patrão, a patroa e os patrõezinhos, em volta do fogo, dentro de uma bacia. Todos os moleques se sentavam no chão, os joelhos brilhavam como espelhos, refletindo o fogo da bacia.  Lá fora o barbado berrando esquisito, o cachorro do mato uivando e a coruja sacudindo as asas piava um pio triste. A lua brilhava de dar gosto. A patroa dá a partida para a molecada ir para a cama. “Dormíamos todos num quatro grande nas esteiras. A peleja velha não dava para tapar. Se cobria os pés descobria a cabeça. Já estava todo mundo dormindo, quando uma correada acorda nóis. Era lambada e mais lambada, de um chicote que minguem via,   e os moleques rodando um atrás do outro igual nas coças do patrão”,  contou seu Ouvídio.

Alguém perguntou ao velho:

— Seu Ouvídio, o que batia em vocês?

— Ah! Milha filha, só podia ser   o próprio Demo o Bicho Ruim…

E assim, terminou mais uma sessão de histórias das histórias de seu Ouvídio. Era  hora de irmos para a cama… escutar o relógio  carrilhão bater meia-noite e “cortar linha cinquenta”.

Oscar Rezende

Buenos Aires, outono de 2021

Nota: Essas histórias estão no livro de memórias de minha mãe:  Uma Vida-Muitas Histórias

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