A cidade amanhece com um sorriso nos lábios, os pássaros cantam e voam formosos no céu, os cachorros de rua latem alegres, o boi, sentenciado e preso ao laço, não invade a casa de ninguém, caminha conformado para o seu cadafalso; o sol da manhã brilha com intensidade, aquecendo as almas, o locutor da difusora anuncia, acompanhado de músicas maravilhosas, o grande dia. Nem o coração mais frio fica insensível … afinal, é dia de baile!
O caminhão das bebidas sobe, em algazarra, as ladeiras para estacionar em frente ao clube. Só não compete com o ônibus do conjunto, que desfila magistralmente pela cidade, antes de se direcionar ao templo da alegria… afinal, é dia de baile!
O salão de dona Dalva abre suas portas logo cedo: tesouras zunindo, pentes voando de uma mão à outra, nuvens de laquê, o barulho do secador misturado aos risos das mulheres, penteados e mais penteados são montados em série… afinal, é dia de baile!
Engoma-se a camisa, passam-se o paletó, a calça e a gravata, pendura-se o cabide na porta do guarda-roupa, os sapatos brilham debaixo da cama; o vestido preto sai do armário e vai para mesa, recebe o calor do ferro, se estica todo e se deita, magistralmente, em cima da cama; o colar de pérolas sai do caixinha e pula no pescoço, a pulseira abraça o punho, o anel acomoda-se ao dedo, as meias sobem, carinhosamente, pelas belas pernas bem raspadas, os pés recebem com carinho os sapatos de salto-alto… afinal, é dia de baile!
A noite chega, a lua brilha, a brisa noturna sopra suavemente abraçando os rostos felizes, que sobem e descem as ladeiras coloridas pelos belos jardins; homens entram e saem dos bares, procurando na bebida uma companheira para aumentar ainda mais à sua felicidade; mulheres lindas caminham, formosas, irradiando brilho, em direção ao Montanha Clube, onde todos irão se encontrar para um brinde ao amor, que está prestes a nascer…afinal, é dia de baile!
A música invade suavemente os ouvidos, a luz negra faz os dentes brilharem, as luzes estroboscópicas pulsam no meio do salão, potencializando os movimentos dos corpos que se abraçam, o cheiro do sexo acelera as batidas do coração, os lábios se encontram, os corpos tremem e os pensamentos voam para o infinito; o cheiro do laquê, dos perfumes da Cashemere Bouqeut, do Lancaster, o argentino preferido por noventa, entre cem homens, e os suores dos corpos em êxtase, se misturam, invadindo a atmosfera do salão mal ventilado do Montanha Clube…afinal é dia de baile!
O galo canta, o churrasquinho cheira atiçando a fome, os bancos da praça se enchem de beijos e amassos, o horizonte ganha uma cor avermelhada, a padaria abre, o pão quentinho é apreciado, o sol nasce, o Montanha Clube cerra suas portas, e a alegria e a tristeza voltam ao seu lugar… afinal, não é dia de baile!
Oscar Rezende
Vitória, outono de 2021
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