Um beijo doce

Nada é mais doce do que um beijo de mãe! Quando uma criança arranha um joelho, ganha um galo na cabeça, ou dá uma topada em uma pedra, não existe analgésico mais poderoso do que um beijo de mãe. Quando uma desilusão amorosa nos aflige, uma derrota nos tira do prumo, o que nos conforta? Um beijo de mãe, sempre o beijo de mãe. Normalmente as mães são assim!  Tenho comigo que receberam uma procuração de Deus, de papal passado e com firma reconhecida, para curarem as dores de seus filhos com o seu poderoso beijo. Hoje, eu assisti um beijo, um beijo sutil, que poucos viram, mas foi o beijo mais doce que já presenciei em toda essa   minha caminhada pela vida, foi um beijo diferente, simplesmente um beijo lançado no ar.

Nas vidas familiares é assim: nascer e morrer em uma certa ordem natural é o caminho imposto pelo tempo. Na minha família, fazendo um corte a partir dos meus pais, tudo vinha seguindo essa ordem: os nascimentos e as mortes   aconteciam dentro de uma lógica mais ou menos cronológica. O Primeiro a se despedir de nós foi o meu pai, em seguida a minha mãe, e, recentemente, a minha irmã Maria das Dores, que se despediu deixando em nossos corações uma certa angústia e tristeza por não mais vivenciarmos o seu bom humor e o carinho que dispensava à toda família. Mas, há cinco anos, o mistério da vida mudou o rumo do tempo… resolveu, por um desejo inexplicável, mexer com a ordem das coisas,  deixando os  pais se despedirem  dos filhos.

Todo o sofrimento que representa a perda de um filho veio pesar sobre os ombros de uma única mãe, a minha irmã mais velha, a Ângela, que ontem enterrou a sua filha Maria Áurea, depois de ter sepultado, há cinco anos, a sua outra filha, Nádia.   Não consigo imaginar a sua dor, ao perder suas duas filhas. Mas, Ângela é resiliente, se apoia na fé: “mata no peito às suas dores, levanta as mãos aos céus, e segue em frente”.

Maria Áurea foi uma mulher alegre, cheia de vida e bem-humorada, morreu fazendo o que mais gostava, viajando. Nos deixou sofrendo a   ausência do seu corpo por três dias, um tempo suficiente para entendermos o quanto era amada pelos amigos e colegas de trabalho: era gente o tempo todo manifestando o seu carinho por ela!

Ontem à noite ela chegou e pudemos nos despedir dela, cumprindo o último rito de passagem que a morte impõe. Acredito que ela tenha ido embora sem sentir a dor de deixar a vida, pois ontem recebeu o beijo mais lindo de despedida: Ângela cansada, se locomovendo com dificuldades, se arrastando com   seu andador, ficou para trás, só na companhia de uma das suas cuidadoras, quando o corteja saiu iluminado por uma luz fraca e por uma lua quarto crescente, que subia lentamente ao céu; olhei para trás e vi uma cena que tocou meu coração: a Ângela jogava beijos para o cortejo! O beijo mais lindo que já vi em toda a minha vida, o beijo que irá curar as dores de Maria Áurea por toda a eternidade.

Oscar Rezende

Bom Jesus do Norte, setembro de 2021.

2 comentários em “Um beijo doce

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  1. Oi Oscar, que descrição linda desse beijo! Realmente desconhecemos a dimensão dessa dor! Legal saber que conta seus contos!
    Abraço fraterno sua ex-aluna do coluni de 79
    Marcele

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